Tuesday, April 28, 2009





POR UM FIO...

Hoje senti uma enorme vontade de evaporar ,tornar-me nuvem , queria brincar no céu que
recuava através da vidraça , fixando vertigens nos olhos da lua cheia que me espiava e exercia seupoder feminino sobre mim , sentia-me intensamente sedutora , desejos à flor da pele exalavam um perfume almiscarado, encharcando os lençóis de sonhos rubros...Mas esta lua era só minha, eu a imaginara assim, pois a que circulava lá fora era uma lua atômica , prestes a explodir naquela paisagem artificial...

Era inverno, não somente a estação, eu também invernei , chovia em mim sensações infinitas , verdadeiros relâmpagos atravessavam a mente e a carne , resolvi hibernar, por um longo período , no meu quarto , ficar com as minhas coisas , enrolar-me nas lembranças , colcha de retalhos a diminuir o frio da solidão dos dias sem sentido...

E será que haveria algum sentido a ser encontrado ?
Clariceanamente indagava-me , secretamente... Era uma viagem que não sabia onde daria , mas sempre fui atraída pelo desconhecido , deixei-me ir de corpo inteiro...
Apenas sabia que se tornara irrespirável o vazio lá fora , aglomerados de solidão circulavam nas avenidas geladas , onde o sangue escorria no cimento e petrificava pela indiferença , rios de egoísmo inundavam a selva de pedra e levavam qualquer vestígio de humanidade...O coração se tornara selvagem , somente eu insistia em sentir...Voei para dentro de mim...

Fugi para minha caverna , contrariando Platão , nem sempre os filósofos têm razão , eles nos provocam, apenas , o delírio é nosso ...

Meu quarto era o meu mundo , preferia ficar ali dentro , onde me habitavam multidões ainda bem humanas , onde alguma memória poderia ser preservada , um subsolo ainda desintoxicado , muito fértil , repleto de histórias , não lineares é verdade , porque sou fragmentada por natureza , mas elas , de alguma forma , intercalavam-se , talvez pelo destino ou por pura coincidência , não sei bem ao certo no que acreditava. Considerava que tudo era invenção , até eu mesma reinventava-me...

Quem eu era agora não correspondia àquela de uma hora atrás , às vezes , os segundos mudam nossas vidas completamente. Se não quisesse mudar , teria que paralisar o tempo , ser apenas uma fotografia , igual àquela que me olhava fixamente da cabeceira da cama , intacta , mas amarelada , como o amor que ali ficou retido pela moldura do tempo , amor em tom sépia, usando uma linguagem pós-moderna , mas diferente dos amores modernos à base de extasy e cálculos exatos de entrega , como se o amor fosse matemático , como se fosse uma equação com solução pertencente ao conjunto real , e não uma equação impossível de ser resolvida, sempre tendendo ao infinito , já nem sei se positivo ou negativo...

O que seria mesmo real ? A dor que ninguém vê ?O amor que ninguém toca ?A distância ? A saudade ? Parecia que somente eu via as coisas ...Eu era a estranha , os outros , normais...

Não , não , decidi que eu mesma inventaria minha própria realidade. Eu me agarraria a cada detalhe guardado nas minhas gavetas para me salvar daqueles dias cinzas que me cercavam . As gavetas sempre guardam segredos...talismãs...mapas...novelos...

Tudo , mesmo morto ou matado , continuava muito vivo em minha caverna, tentava segurar o novelo que me tiraria daquele inverno eterno...Estaria eu num labirinto ? Seria eu mesma o Minotauro a tentar devorar-me , naquela seCreta ilha que criei ?

Não sei , ao menos conscientemente não sabia..., mas qualquer coisa seria melhor do que aquele palco de cimento e de personagens mascaradas, algemadas a um presente sem passado nem futuro , uma odisséia no cyberespaço , sem heróis nem ideologias , onde os seres humanos tornaram-se verdadeiros alienígenas para mim , seres metalizados pelos artifícios das cidades virtuais , redes de ilusão ou seria uma espécie de geração futurista que já se apresentava e
dominava o mundo, simplesmente ?

O imenso oceano da realidade terminaria por encobrir minha ilha em pouco tempo, nada resiste às suas águas...
Mas tudo que eu queria era permanecer ali , naquele lugar improvável de ser encontrado , atravessei os himalaias de solidão das metrópoles para me descobrir naquele pequeno espaço , surpreendida pelos meus próprios olhos a fixar-me no espelho.Pela primeira vez me vi refletida em minhas retinas , sem máscaras, pela primeira vez adentrei minha alma ...
Foi assustador ! Havia uma parte sombria , onde habitavam meus medos e outros sentimentos mesquinhos adquiridos , porém havia outra cristalina, bem diferente do que imaginara.
A realidade não conseguira poluir totalmente meus interiores sagrados...

Enquanto minha ilha não afundava , continuava a brincar de nuvens , repletas de lembranças doces..., feitas de algodão..., e a saudade se dissolvia na boca e era azul..., últimos vestígios de humanidade , quiçá ... Será que alguém sentiria minha ausência ? Talvez tudo que eu quisesse fosse apenas receber um bilhete dizendo ‘sinto falta de você’...
Mas nenhum sinal , nenhuma voz , senão ecos do passado ali conservados no formol da memória emotiva ...

Segurava firme o novelo , não como fuga , contudo como questão de sobrevivência...Deixar o novelo se partir seria cair no mais profundo abismo, na pedra pontiaguda da realidade, seria letal...Não que eu mesma não fosse um abismo , sabia que era , mas este era inventado, poderia deslocar uma nuvem azul para aparar minha queda , seria transportada ao céu , suavemente ou seria ao inferno , através de uma serpente ? Não sei , ao certo , o que seria melhor imaginar , decidirei no caminho , ouvindo um blues de despedida da Janis in ‘Cry Baby'...
Um cheiro de pérola exalava da concha do infinito... deve haver algum sentido no que vem depois....

(Raiblue)

Friday, April 24, 2009




(SAL)DADE...

Havíamos marcado um encontro para uma madrugada chuvosa, porque queríamos dançar na chuva, como naquele filme ,‘ Singing In The Rain’! A canção seria composta pelos olhos e mãos...

E foi exatamente assim que aconteceu, tudo conspira a favor dos amantes...

Adentrei seu quarto azul pela janela, um vento suave soprando as cortinas amarelas... rocei sua pele delicadamente, como uma serpente, até ele arrepiar...Ele, que estava de bruços, virou-se, e, ao primeiro contato de nossas retinas, o fogo acendeu o quarto escuro.Lampiões acesos nos corredores da mente...abrindo os caminhos invisíveis...

Não conseguimos nos desgrudar. Ele se entregou ao meu domínio e voamos colados, de corpo e alma, até a praia do prazer...

Seus olhos eram faróis no meio da chuva... luz molhada cintilando tudo em mim.

O silêncio da madrugada amplificava as batidas do nosso coração... era o tambor de um amor ecoando do fundo das almas, no fundo das águas...

Caminhávamos de mãos dadas, sentindo a textura, o calor que atravessava os dedos
entrelaçados, e era como se todo o corpo tivesse abraçando o outro...

De repente, uma música, ao longe, aproximou nossos corpos. Suas mãos me falavam coisas que escorregavam pela cintura..., as pernas tremiam e tudo ao redor girava. Estávamos no carrossel do desejo, conduzidos por um amor que parecia anterior a nós mesmos.

Em seu ouvido, a minha boca ensaiava uma palavra que não saía..., mas ele sentia a quentura da minha respiração...O barulho da chuva junto ao som do violão, que vinha de uma janela aberta, numa esquina próxima à praia, conduziam a nossa dança...Suas mãos criavam as melodias mais ardentes..., as ondas vinham no ritmo dos seus dedos...Ele cheirava meus cabelos como quem inspirava o mar...a maresia... eu era sua praia...ele, o meu segredo no fundo do mar, que durante esta madrugada chuvosa veio à superfície e jorrou em minhas areias...

Quando seu rosto colou no meu, reconheci seu hálito, seu cheiro de algum lugar que não lembro, mas desse cheiro e textura eu já sabia, magicamente já sabia, e me arrepiaram como um surpreendente reencontro...

Quando nossos lábios deslizaram e se tocaram...a chuva parou como um encanto,estávamos molhados por dentro...

Acordei com lágrimas nos olhos...e o sal espalhado no lençol...

Cristais de suor e (sal) dade...

(Raiblue)



Encontro marcado e cumprido, querido Jéfte!