Saturday, October 03, 2009
Pernoito dentro dessa saudade, e o chão se abre em neblina azul. Penetro o pálido vago, memórias de um subsolo onde você ainda ,deitado sobre mim, roça minha nuca e pinta em meu ouvido um futuro suspenso num sonho feito de um invisível inquebrável, como deveriam ser todos os sonhos, uma epifania nas veias, e as artérias me levando de volta a uma parte de mim descolada , que ficou em alguma Pasárgada, num vôo sobre esse mundão afora.
É muito tênue esse caminho que me divide entre um restinho de rio e mar... Trago o doce e o sal nas entranhas e um estranho sentimento de não pertencer a lugar nenhum, pois, no final das contas, essa vida nem é mesmo da gente...
Nômade ou extraviada, o destino parece sempre escapar, e os passos, cansados, vacilam em cima do muro das lamentações, talvez porque o sertão que corta as minhas águas, quase em extinção, saiba bem que não se espera muito dessa vida emprestada, quando tudo é seca... Segue-se o seco com o olhar perdido até que o céu chore por nós, e a chuva fecunde uma pontinha de esperança nas terras do coração que navega em qualquer gotinha de oásis...
E é assim, num tempo cada vez mais instável, que tua ausência flutua na saliva da noite, devorando meu sono. Dou-me inteira, como presa dessa fome, como se, ao ser tocada pela boca da noite, todas as distâncias se dissolvessem no meu paladar, com essa fragância que imagino teus lábios cheios de sol...
E um vermelho sopra as cortinas que lançam a jangada azul-cor-de-céu-portodosempre na rubraonda sobre o meu corpo, até o fundo das águas que me despem e fecundam meu sertão de puro encantamento. Navegar é preciso, ainda que em pleno deserto!
E a casalma inunda, as paredes transpiram sussurros que escorrem, pintando algas no teto transparente, e um sol transgressor sorri, com seus reflexos dourados em nossas espumas-lavas-lunares, levando o arco-íris para o sertão de cada um, que se dissolve em corais, no suor de luar, enfeitando nosso noturno mar...
Algo das algas derrama o verde frescor do instante vivido e há uma umidade de chuva sob ele, das chuvas que guardam os beijos dentro de cada gota que vira um oceano dentro da boca...
A saudade sempre me chega como um sax soprando furacões de silêncios de lampiões e sons cintilantes , sempre música no meu paladar, pois sempre gostei de lamber os sons das coisas, como um doce ritual guarani que resgatava o espírito ancestral de tudo que já havia passado por mim e voltava... porque na verdade nunca fora para sempre...
Toco tua voz, que me chega assim de longe, com a língua, sugo toda a polpa que tem o teu sotaque, bebo os sons de sim que vêm no vento de tua respiração, e sinto um tornado derrubando todos os nãos que roubam nossos sonhos, traiçoeiramente, como feitiço, coisa- feita pra não deixar a gente ser feliz, ainda que a felicidade seja clandestina mesmo...
O mistério está em esquecer um tantinho dessa modernidade pantanosa e ir buscando devagarzinho o que não está nas idéias, perder o juízo encurta qualquer distância!
É preciso enxergar aquilo que está no sem fundo dos olhos e da vida, inesgotáveis fontes de mistério, lugarzinho navegável até a barquinhos de papel. Basta não ter pressa, acender a luz de um lampião na varanda dos sentimentos e escutar os vaga- lumes trazendo alguma mensagem secreta das estrelas...
Abandonar a lógica e sentir o aroma..., e o paladar experimentará de novo a vida... afluente de magma trazendo de volta o calor humano ao homem-de-lata que nos tornamos...
Temos que sair das jaulas que não nos protegem e plantar
uma flor no asfalto, há de brotar um Éden não artificial...
este que sempre brota dessa saudade estampada
com flores-fluviais-feitas-de–correntezazul...
“Shimbalaiê quando vejo o sol beijando o mar... Shimbalaiê toda vez que ele vai pousar...” ... e meus olhos re_pousam em ti...
pássaro livre vivendo anos nos segundos de um bater de asas...ancorando meu vôo em teu portodosempre...e teus olhos crescem feito duas luas se pondo em mim...
Basta um piscar pra eu te amar...e tudo se pôr em seu lugar...
Basta o movimento dos barcos e o encontro se dará...breve e infinito como a vida...
(Raiblue)
Madrugada de 24 de setembro de 2009./ Pensando em meu solzinho...
Subscribe to:
Comments (Atom)