
O DRONE DOS CÔMODOS DA ALMA
Não diga, “eu encontrei a verdade”, mas antes, “eu encontrei uma verdade”. Não diga “eu encontrei o caminho da alma”. Antes diga, “eu encontrei a alma caminhando o meu caminho”. Para a alma caminhar em todos os caminhos. A alma não caminha em uma linha, nem cresce como um junco. A alma não abre-se, como uma lótus de inúmeras pétalas.
(Khalil Gibran, O Profeta, 1923)
Eu quero os contornos da noite, quando as sombras são silhuetas de coisas que existem, mas não se definem, porque defini-las seria reduzi-las a uma imagem. Seria como querer definir Deus. Ele não é um conceito nem cabe num retrato. É a idéia sobre a coisa que a faz existir, e uma idéia está sempre singrando. Logo, existir ou não existir? Eis a equação cuja solução não pertence ao conjunto real...
A noite é ampla, não cabe numa moldura. É fechadura por onde se espia as possibilidades, mas nunca se abre as portas totalmente, a fim de ampliar os caminhos. As verdades habitam as penumbras. A sombra é sempre um desafio, um labirinto que nos salva da realidade estática. Não, não quero a definição que estagna o meu pensar. A idéia é livre. Entender seria trancar-me numa casa e esquecer dos entornos.
Os contornos, que definem o espaço, também são muralhas que impedem de ver o horizonte se derramar no mar ou o mar engoli-lo, depende de quem olha. Só podemos escolher as paisagens, quando não possuimos grades no olhar: Open Your Mind e a sua alma lhe alcançará!
Entender aprisiona, enquanto a dúvida é um exercício de liberdade. Viver é vasto, é sempre uma idéia em movimento; eu sou múltiplo, o tudo sempre está no verso das coisas, sempre no avesso indecifrável. Prefiro a desordem das palavras dissolvida na minha, entrecortando a escuridão, amplificando o silêncio grávido de coisas por dizer, que se misturam ao barulho do refrigerador e ao tic-tac do relógio inútil, visto que o tempo, em mim, acelera e desacelera involuntariamente.
Nunca me encontro onde estou. Sou assimétrico e sem métrica, poesia instintiva que devora o cotidiano. Tenho um olho diferente do outro, e vejo tudo ao mesmo tempo. Um olho grita e goza, explicitamente, no implícito do que vê; o outro, silencia e pondera, implicitamente, no explícito invisível.
Não quero no pulso a inutilidade do tempo que gira ao redor de si próprio à sombra de um tic-tac frenético. Inúteis, volto a dizer, inúteis. Nunca concebi um tempo que vivesse em função de si, escorrendo num pulso que não o do meu coração. Nunca concebi um tempo que não o eterno, infindo, um tempo onde caiba o meu silêncio.
Meus lábios guardam a brasa viva que purifica os dados de minhas palavras, que nunca sei se jogadas à sorte ou se ensaiadas em algum outro tabuleiro da memória, ainda que eu prefira o verso infindo do silêncio - esse drum cadenciado de minha canção noturna - que em uma retina dorme, e em outra grita.
A noite em néon cai sobre minha cabeça alucinada pelas ondas sonoras desse diálogo impossível entre os meus olhos. Quanto mais vejo, mais tenho certeza da dúvida.Quanto mais busco auto-conhecimento, mais me estrangeirizo, porque pensar é transgredir qualquer limite, é um eterno estranhamento.
Rasguei as ideologias iluministas para acreditar em minhas verdades relativas escavadas nas sombras, pois não queria apenas reproduzir o que os outros viam.
Sinto-me saudavelmente divergente, servo e senhor de mim, com o destino fazendo piruetas!
Como encontrar unidade na pluralidade dos caminhos? Como ser um, se em cada olho habita um outro tão contrário? Como me perder nas bifurcações da noite, se a verossimilhança me une a ela? Como um morcego, sobrevôo cegamente o paraíso da dúvida, esse escuro aceso que não me deixa ser alienado a uma única prepotente verdade. Bebo cálices de incertezas, brindando a liberdade do pensamento e repudiando as ideologias mortas que tentam impedir a revolução.
A minha arma é a minha asa, alma a caminho de casa,no infinito azul...
O drum do silêncio continua a ecoar, e as dúvidas a dar uma volta completa dentro das retinas; partem e retornam ao mesmo ponto, mas nunca da mesma forma, já são outras, inesgotáveis, soprando o balão dos sonhos no céu das divagações...
No globo ocular, psicodélicas viagens à procura de Deus, a única indefinível certeza, que a tudo define, e é, em sua existência, o mais profundo dos mistérios e, por vezes, parte do meio da dúvida.
Sempre preferi as perguntas às respostas, afinal são as perguntas que nos impulsionam a um novo salto, na maioria das vezes, experimentado à luz do escuro. As dúvidas são como a noite: um fenômeno diáfano. Mas, a certa altura, os impulsos não são mais que giros ao redor de mim. Mais da metade das dúvidas humanas é assim, de saltos seguidos, traçando um ângulo de 360°. Mas que bom que há gente que não se guia só pelos olhos, mas pela força dos demais sentidos, e exercita bem os saltos no coração da penumbra. Esforço-me para ser um destes, daí minhas olheiras, resultado de mergulhos no inexplicável, porém profundamente sentido.
O diálogo de meus olhos, em certas horas, é quase vesgo e, então, não sei se prefiro suas controvérsias ou o discurso movente da mudez de meus lábios. As palavras sempre me antecedem, mas o estrondo do inaudível está ainda um passo à frente e ressoa nos cômodos de minha alma, como um drone. O silêncio é um tornado surgido do bater de asas de uma mariposa, que se esforça sob o túmulo estrelado.
E é nesse lugar, onde a metamorfose busca o impossível, que o pó daquilo que foi passa a ser o início de um novo mistério, pois quem poderá afirmar como terminará o infinito?
Cai uma estrela da minha lápide azul em meus olhos vesgos, fechando-os como se fosse as mãos de Deus, e, finalmente, enxergo o universo nu, do subsolo de minha secreta alma.
E a borboleta continua a desvendar janelas no fundo rio que atravessa o eterno...
(RaiBlue&Jéfte Sinistro)
Em 07 de julho de 2009
Que nossas línguas continuem sempre bluesinistrando, meu amor...obrigada!
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