
SILÊNCIO DE CARNE E OSSO
“Perfeição demais me agita os instintos...”
(Zélia Duncan)
O inverno se aproximando e quarenta graus no coração. Tempestades no deserto da aorta, entupida pela ferrugem do tempo.Casaco de flocos de neve, para congelar o impulso, coagular o vulcão subcutâneo.Terremotos de sentimentos, abalos sísmicos nos icebergs espalhados entre os pelos.
Aquele que habita o mais profundo de mim não é o que os outros vêem. Daí a contração muscular, a tensão dos fios que tentam conectar’ eus’ tão distintos. Me perdi entre um e outro. Caramujo de mim,vou me enrolando como se quisesse estrangular a vida, no fundo das areias pantanosas. Sou um labirinto de máscaras. Em qual delas baterá o meu coração?
Estou no meio da zona do indefinível. Seguro no trapézio, mas não consigo saltar, porque não sei para que lado quero ir, pois sei que escolhas implicam em renúncias. Não sei qual ‘eu’ me trará alivio nem aquele que não quero mais ser. Há um equilíbrio nesse caos de minha cosmologia, uma rebeldia para disfarçar o medo daquele que nem conheço, mas que já está aqui, latente, como uma sombra que ninguém vê, mas que se projeta sob os meus passos.
Sou mais o que penso ou o que escapa das grades do pensamento? Os gestos planejados ou os impulsos acrobáticos atravessando as artérias em saltos bárbaros?
Penso que o meu ‘ser pensante’ às vezes não me deixa ‘ser’, de tanto que me julga, modela, padroniza e questiona meus instintos, como senhor absoluto. Enlata-me para ser devorado, sem efeitos colaterais, para aumentar meu prazo de validade.
Mas tem algo em mim que quer inflamar e não apenas durar.
Pensar, às vezes, me deixa exausta, como se eu estivesse nadando contra minhas próprias correntezas. Pensar, às vezes, é cortante, aborta os sonhos, faz sangrar a alma.
Num silêncio de carne e osso, meu coração granada implode, mas ninguém ouve. Os tímpanos das cidades desalmadas estouraram. As máquinas substituíram o humano, a voz agora é uma gravação programada. Os ouvidos foram arrancados. Quase não há diálogo entre os olhos, senão quando a palavra digitada armazena a alma. Existem e-mails que beijam a pele e acalmam ou ardem!
O tumulto é de pedra rolando goela adentro. A pedra agora está dentro de nós, sem nenhum caminho. Há várias pedras, uma muralha cercando o coração. Proteção ou prisão? Quanto valerá, afinal, um pensamento, sem pitadas coronárias vermelhas? Ao pensar isto, senti, imediatamente, um cáustico enjôo.
No meio da náusea, brota uma flor que insiste em perfumar o hálito, como quem aguarda um beijo, quando o trem atravessar a cidade de aço e alcançar a estação de calor.
Contudo, por enquanto, hibernada nesse silêncio corrosivo, a esfinge da fé tenta decifrar meus enigmas. A febre não passa. A dúvida galopa em meus campos, que pensei ser tão maduros, indomável fera a rondar meus poros, como quem fareja uma saída.
As portas do inverno abertas, o mar congelado, o mergulho adiado para um verão que nem sei se verei. Convulsão, choque térmico. Os círculos fechados dentro dos olhos abertos, e uma dantesca fome que nada sacia. A vida vazia, eu vazante, vazada, e a tinta vermelha escorrendo.
A veia aberta tentando expulsar coágulos de pensamentos que impedem o trânsito da emoção. Pressão ocular elevada, quase levando à cegueira. Ensaios? Desespero.
Preciso ver para crer ou crer para ver?
De novo, ninguém me responde. Sou mais um enlatado, na prateleira dessa sociedade de consumo, que já perdeu o paladar para as coisas naturais, há muito tempo.
Macrobiótica esperança mastigada até o ultimo grão.
A inteligência artificial e a geração digital comandando o destino, como deuses da astronave Terra. Todos nós astronautas de um universo cada vez mais perdido nos cyberespaços, e a odisséia dentro de nós.
A identidade se desintegrando nas clonagens, nas montagens digitalizadas.' Admirável chip novo! 'Fios substituindo veias. O ponto de mutação perdido na nova era, sem nenhum Zaratustra nem Gentileza.
E os livros nas estantes, as histórias amarelando, os heróis esquecidos em suas epopéias. O amor, pura representação. Sentimentos pensados e não vividos. Uma ficção real.
Tudo agora imediato: o contato e a desilusão; a felicidade e a dor.
Tudo breve, só não a neve que encobre as cidades, congelando o coração. Porém, ainda ouço uma melodia que me faz respirar na brecha de um sopro de sax, um pressentimento guardado em segredo na caixa de Pandora, no fundo do meu secreto abismo.
Alguma coisa ainda vibra sobre o gelo e entre os meus pelos...
Uma música derrete até mesmo o aço...pode reinstalar o sistema...quiçá...
Afinal, somos feitos de silêncios e sons...
(Raiblue)
Em 13 de junho de 2009

