Friday, June 19, 2009




SILÊNCIO DE CARNE E OSSO


“Perfeição demais me agita os instintos...”
(Zélia Duncan)



O inverno se aproximando e quarenta graus no coração. Tempestades no deserto da aorta, entupida pela ferrugem do tempo.Casaco de flocos de neve, para congelar o impulso, coagular o vulcão subcutâneo.Terremotos de sentimentos, abalos sísmicos nos icebergs espalhados entre os pelos.

Aquele que habita o mais profundo de mim não é o que os outros vêem. Daí a contração muscular, a tensão dos fios que tentam conectar’ eus’ tão distintos. Me perdi entre um e outro. Caramujo de mim,vou me enrolando como se quisesse estrangular a vida, no fundo das areias pantanosas. Sou um labirinto de máscaras. Em qual delas baterá o meu coração?

Estou no meio da zona do indefinível. Seguro no trapézio, mas não consigo saltar, porque não sei para que lado quero ir, pois sei que escolhas implicam em renúncias. Não sei qual ‘eu’ me trará alivio nem aquele que não quero mais ser. Há um equilíbrio nesse caos de minha cosmologia, uma rebeldia para disfarçar o medo daquele que nem conheço, mas que já está aqui, latente, como uma sombra que ninguém vê, mas que se projeta sob os meus passos.

Sou mais o que penso ou o que escapa das grades do pensamento? Os gestos planejados ou os impulsos acrobáticos atravessando as artérias em saltos bárbaros?

Penso que o meu ‘ser pensante’ às vezes não me deixa ‘ser’, de tanto que me julga, modela, padroniza e questiona meus instintos, como senhor absoluto. Enlata-me para ser devorado, sem efeitos colaterais, para aumentar meu prazo de validade.
Mas tem algo em mim que quer inflamar e não apenas durar.

Pensar, às vezes, me deixa exausta, como se eu estivesse nadando contra minhas próprias correntezas. Pensar, às vezes, é cortante, aborta os sonhos, faz sangrar a alma.

Num silêncio de carne e osso, meu coração granada implode, mas ninguém ouve. Os tímpanos das cidades desalmadas estouraram. As máquinas substituíram o humano, a voz agora é uma gravação programada. Os ouvidos foram arrancados. Quase não há diálogo entre os olhos, senão quando a palavra digitada armazena a alma. Existem e-mails que beijam a pele e acalmam ou ardem!

O tumulto é de pedra rolando goela adentro. A pedra agora está dentro de nós, sem nenhum caminho. Há várias pedras, uma muralha cercando o coração. Proteção ou prisão? Quanto valerá, afinal, um pensamento, sem pitadas coronárias vermelhas? Ao pensar isto, senti, imediatamente, um cáustico enjôo.

No meio da náusea, brota uma flor que insiste em perfumar o hálito, como quem aguarda um beijo, quando o trem atravessar a cidade de aço e alcançar a estação de calor.

Contudo, por enquanto, hibernada nesse silêncio corrosivo, a esfinge da fé tenta decifrar meus enigmas. A febre não passa. A dúvida galopa em meus campos, que pensei ser tão maduros, indomável fera a rondar meus poros, como quem fareja uma saída.

As portas do inverno abertas, o mar congelado, o mergulho adiado para um verão que nem sei se verei. Convulsão, choque térmico. Os círculos fechados dentro dos olhos abertos, e uma dantesca fome que nada sacia. A vida vazia, eu vazante, vazada, e a tinta vermelha escorrendo.

A veia aberta tentando expulsar coágulos de pensamentos que impedem o trânsito da emoção. Pressão ocular elevada, quase levando à cegueira. Ensaios? Desespero.

Preciso ver para crer ou crer para ver?

De novo, ninguém me responde. Sou mais um enlatado, na prateleira dessa sociedade de consumo, que já perdeu o paladar para as coisas naturais, há muito tempo.

Macrobiótica esperança mastigada até o ultimo grão.

A inteligência artificial e a geração digital comandando o destino, como deuses da astronave Terra. Todos nós astronautas de um universo cada vez mais perdido nos cyberespaços, e a odisséia dentro de nós.

A identidade se desintegrando nas clonagens, nas montagens digitalizadas.' Admirável chip novo! 'Fios substituindo veias. O ponto de mutação perdido na nova era, sem nenhum Zaratustra nem Gentileza.

E os livros nas estantes, as histórias amarelando, os heróis esquecidos em suas epopéias. O amor, pura representação. Sentimentos pensados e não vividos. Uma ficção real.

Tudo agora imediato: o contato e a desilusão; a felicidade e a dor.
Tudo breve, só não a neve que encobre as cidades, congelando o coração. Porém, ainda ouço uma melodia que me faz respirar na brecha de um sopro de sax, um pressentimento guardado em segredo na caixa de Pandora, no fundo do meu secreto abismo.

Alguma coisa ainda vibra sobre o gelo e entre os meus pelos...
Uma música derrete até mesmo o aço...pode reinstalar o sistema...quiçá...

Afinal, somos feitos de silêncios e sons...

(Raiblue)



Em 13 de junho de 2009

Friday, June 12, 2009





CAMALEÔNICO CASULO



"Quem iria conhecer essa imensa beleza
Quem iria conhecer um transe santo
Quem iria conhecer essa respiração milagrosa
Para inalar um confronto carregado de coragem"
(Bjork - Cocoon)


Bebi a chuva que invadia repentinamente o meu deserto, a fim de que o comprimido do tédio descesse mais rápido goela adentro. Contudo, acabei levando toda tempestade junto, e, agora, a enchente desorganizava toda lógica dos meus compartimentos, aparentemente acomodados dentro do previsível.

Os desertos são assim: longos períodos de calmaria e, de repente, as tempestades de areias lançadas pelos fortes ventos.

Como um camaleão, na falta de vegetação, pois o verde há muito tempo desapareceu de minhas terras e a esperança já não voava mais por aqui, tentei me esconder sob as dunas de pensamentos.Engolir o tédio era torturante, mas para livrar-me dele seria preciso descascar camada por camada das idéias que sustentavam o meu falso equilíbrio.

Sob os olhos vermelhos e escaldantes do sol que castigava o solo de meu pensar calejado, brotava a indagação, quase como uma miragem, das areias de meus ‘eus’ : o que amargava mais, os comprimidos de tédio ou o descascar dessas camadas quase sedimentadas em meu ponto de aparente equilíbrio?

Pertinente, porém tempestuoso demais para o instante.

A essa altura o vento se impunha com mais força, desconstruindo e reconstruindo as dunas dos pensamentos onde eu estava. Parecia trazer, também, um cântico familiar entre a poeira que carregava como um fardo - não para ele, mas para mim e os demais andarilhos desse pedaço de chão.

Fui seduzido por aquele cântico, numa espécie de hipnose. Tentava resistir, temendo o que encontraria sob aquela névoa, que mais parecia uma cortina do tempo que se desfazia e me lançava num vácuo. Era como se eu fosse adentrar um palco, esperando ver um espetáculo inusitado e, de repente, desse de cara comigo mesmo, como protagonista. As paredes eram espelhos, e eu repartido em vários. Foi quando percebi que os andarilhos eram ‘eus’ que se procuravam.

Seria uma revelação?

O tempo parecia furioso, me sugava como um moinho para dentro de um espaço desconhecido. Ao pisá-lo, foi tão estranho! O chão era inconsistente como um mangue. Talvez fosse a poeira misturada às minhas águas represadas.
A sensação era exatamente esta. Sabe aquela arte de colocar a farinha no caldo para fazer o pirão?Pois era assim que estava me sentindo, remexido, pisando em algo que não era nem duro nem mole, um terreno indefinível em sua textura.

Seria movediço?

Do tédio do rígido previsível, fui ao pavor daquilo que me tirava o chão, que me deixava solto no ar, sem gravidade, ou melhor, era algo gravíssimo, e me fugia ao controle. Porém curioso, era assustador e leve, ao mesmo tempo.

Agitado, comecei a sentir um cheiro esquisito, coisa que há muito não sentia. Pensei que a aridez do deserto houvesse me roubado o olfato para os detalhes dos entornos.
Mas, milagrosamente, o apurou ainda mais. O aroma penetrava meu casco de camaleão, que começava a se transfigurar, numa espécie de metamorfose. Todavia, invés de sair do casulo, a sensação era de estar entrando nele, de volta.

Era como se o tempo – que ali cheirava a menta e canela – me tomasse pelos braços e me levasse a uma prisão. Não uma prisão qualquer, mas uma caixa mágica. Um casulo onde o aroma costurava novas asas em mim. Sentia como se tivesse nascido velho e, ali, estivesse rejuvenescendo... Não sabia ao certo o que sentir.

Dentro do casulo tudo era penumbra. Eu tateava as paredes tentando enxergar os contornos do lugar. Havia algo diferente, ali. Era como se, a cada passagem de minhas mãos sobre as paredes internas do casulo, fossem bordadas palavras mágicas que se renovavam a cada toque. Eram palavras celestes, ora cinzas, ora azuis.

E, nessa oscilação, elas se soltavam e boiavam num líquido viscoso, até grudarem no meu casco, já amolecido e não mais enrugado. Iam despindo, uma a uma, minhas couraças.
À medida que trocava de pele, sentia nascer um outro ser.
O amniótico líquido apagava digitais, que nela estavam impregnadas, e preparava virgens camadas para novas viagens. A tinta escorria levando todo entulho da minha antiga casa.

Então, eu, que chovia por dentro, começara a sentir uma delicada forma de calor...

Sentia a menta de alguns beijos deliciosamente roubados e aquele aroma de uma infância emprestada, não vivida, mas que cheirava à canela do mingau da casa vizinha, nas tardes em que eu, já camaleãozinho, me escondia entre as folhas e inventava vidas coloridas, para sobreviver à cinza selva urbana.

O que eu imaginava era mais real do que o asfalto bruto. Era a minha morfina, era a alma escapando do tédio daquele corpo rígido e insensível. A minha mente, um ciberespaço, onde eu navegava um mundo só meu. Minha tribo era eu.

Catava sonhos nos ventos, que viravam cata-ventos de palavras, que se tornavam o grande sol do meu deserto. E o amarelo ascendia entre as folhas! Eu tinha todas as paisagens por dentro, onde a poesia desabava...

Fora naquele escuro líquido que tudo ficara claro, e eu conseguira renascer...

Ou seria apenas mais uma reinvenção? Deixo, com as palavras, a palavra final...




(Raiblue & Jéfte Sinistro)

Em 28 de maio de 2009


Ao meu môrEco...pela cumplicidade...

Tuesday, June 02, 2009

PRELÚDIO DE INVERNO






São 18 horas de uma terça-feira comum. Chego do trabalho e, depois de alguns dias asfixiada por aplicação de provas e correções, ao abrir a porta de casa, vou jogando, sobre a mesa, minha bolsa, pastas, livros, cadernos. Vou deixando, pelo caminho até o meu quarto, meu All Star azul, que me dá sensação de estar sempre pisando nas nuvens, já que é da cor do céu e traz estrelas no nome...

Tiro a camiseta preta , que contém uma frase do meu quase favorito poeta, dizendo que “Tudo vale a pena,se a alma não é pequena...”, e, à medida que vou me desfazendo do peso da matéria sobre o meu corpo, vou sentindo mesmo minha alma alargando e a sensação de que meu poeta pode estar certo.

O cotidiano é, muitas vezes, cruel demais! Ditador, vai conduzindo autoritariamente
a vida.Quando percebemos, o tempo passou, perdemos muitos trens ( no sentido denotativo e conotativo da palavra) e grandes viagens, porque não soubemos navegar no impreciso, porque não sopramos a vela nós mesmos,deixamos a responsabilidade toda com os ventos.E ‘Ele’ já havia dito:-Faça sua parte que eu te ajudarei-Portando, nem todos os ventos são confiáveis.

Ventos são traiçoeiros,quando não sabemos, de fato, a direção que queremos seguir.

Tirar instantes como este, para nos desnudar de tudo, para entrar em contato íntimo conosco, é fundamental para perceber o que circula em nossas veias, além da pressão das preocupações diárias. Liguei o som, escolhi, de olhos fechados, o CD que eu colocaria para me acompanhar durante o banho. Apaguei a luz, apertei o play, e fui para o chuveiro. Enquanto a água escorria sobre minha pele, sobre o ruivo dos meus cabelos, rubro dos seus fios parecia se dissolver ...o turqueza da tarde dava lugar ao escarlate da noite em mim...

E, então, a voz da Adriana surgia mansamente e parecia falar por mim,
parecia falar em mim, dizendo:

“Tarde turquesa, quarenta graus
Talvez porque você não esteja, tudo lateja
Tarde sem nuvens, cinqüenta graus
Talvez por sua ausência, tudo derreta...
Noite sem ninguém, nada se mexe
Meu sonho, nosso amor é sério
E você em outro hemisfério

Enquanto tudo derrete, enquanto tudo derrete,
Enquanto tudo parece... derreter”

E enquanto a canção ecoava lá dentro, coloquei o chuveiro na temperatura máxima
para elevar ainda mais a minha...queria sentir a convulsão até a última gota...queria o calor derretendo a ausência, trazendo para perto o longe ...

Talvez não quisesse enxergar que o longe é que estava cada vez mais perto...
Cada vez mais próxima a distância e sua geleiras...

A noite chegou, e foi inevitável o frio...

(Raiblue)



Quando uma saudade bate à porta...