Friday, June 12, 2009





CAMALEÔNICO CASULO



"Quem iria conhecer essa imensa beleza
Quem iria conhecer um transe santo
Quem iria conhecer essa respiração milagrosa
Para inalar um confronto carregado de coragem"
(Bjork - Cocoon)


Bebi a chuva que invadia repentinamente o meu deserto, a fim de que o comprimido do tédio descesse mais rápido goela adentro. Contudo, acabei levando toda tempestade junto, e, agora, a enchente desorganizava toda lógica dos meus compartimentos, aparentemente acomodados dentro do previsível.

Os desertos são assim: longos períodos de calmaria e, de repente, as tempestades de areias lançadas pelos fortes ventos.

Como um camaleão, na falta de vegetação, pois o verde há muito tempo desapareceu de minhas terras e a esperança já não voava mais por aqui, tentei me esconder sob as dunas de pensamentos.Engolir o tédio era torturante, mas para livrar-me dele seria preciso descascar camada por camada das idéias que sustentavam o meu falso equilíbrio.

Sob os olhos vermelhos e escaldantes do sol que castigava o solo de meu pensar calejado, brotava a indagação, quase como uma miragem, das areias de meus ‘eus’ : o que amargava mais, os comprimidos de tédio ou o descascar dessas camadas quase sedimentadas em meu ponto de aparente equilíbrio?

Pertinente, porém tempestuoso demais para o instante.

A essa altura o vento se impunha com mais força, desconstruindo e reconstruindo as dunas dos pensamentos onde eu estava. Parecia trazer, também, um cântico familiar entre a poeira que carregava como um fardo - não para ele, mas para mim e os demais andarilhos desse pedaço de chão.

Fui seduzido por aquele cântico, numa espécie de hipnose. Tentava resistir, temendo o que encontraria sob aquela névoa, que mais parecia uma cortina do tempo que se desfazia e me lançava num vácuo. Era como se eu fosse adentrar um palco, esperando ver um espetáculo inusitado e, de repente, desse de cara comigo mesmo, como protagonista. As paredes eram espelhos, e eu repartido em vários. Foi quando percebi que os andarilhos eram ‘eus’ que se procuravam.

Seria uma revelação?

O tempo parecia furioso, me sugava como um moinho para dentro de um espaço desconhecido. Ao pisá-lo, foi tão estranho! O chão era inconsistente como um mangue. Talvez fosse a poeira misturada às minhas águas represadas.
A sensação era exatamente esta. Sabe aquela arte de colocar a farinha no caldo para fazer o pirão?Pois era assim que estava me sentindo, remexido, pisando em algo que não era nem duro nem mole, um terreno indefinível em sua textura.

Seria movediço?

Do tédio do rígido previsível, fui ao pavor daquilo que me tirava o chão, que me deixava solto no ar, sem gravidade, ou melhor, era algo gravíssimo, e me fugia ao controle. Porém curioso, era assustador e leve, ao mesmo tempo.

Agitado, comecei a sentir um cheiro esquisito, coisa que há muito não sentia. Pensei que a aridez do deserto houvesse me roubado o olfato para os detalhes dos entornos.
Mas, milagrosamente, o apurou ainda mais. O aroma penetrava meu casco de camaleão, que começava a se transfigurar, numa espécie de metamorfose. Todavia, invés de sair do casulo, a sensação era de estar entrando nele, de volta.

Era como se o tempo – que ali cheirava a menta e canela – me tomasse pelos braços e me levasse a uma prisão. Não uma prisão qualquer, mas uma caixa mágica. Um casulo onde o aroma costurava novas asas em mim. Sentia como se tivesse nascido velho e, ali, estivesse rejuvenescendo... Não sabia ao certo o que sentir.

Dentro do casulo tudo era penumbra. Eu tateava as paredes tentando enxergar os contornos do lugar. Havia algo diferente, ali. Era como se, a cada passagem de minhas mãos sobre as paredes internas do casulo, fossem bordadas palavras mágicas que se renovavam a cada toque. Eram palavras celestes, ora cinzas, ora azuis.

E, nessa oscilação, elas se soltavam e boiavam num líquido viscoso, até grudarem no meu casco, já amolecido e não mais enrugado. Iam despindo, uma a uma, minhas couraças.
À medida que trocava de pele, sentia nascer um outro ser.
O amniótico líquido apagava digitais, que nela estavam impregnadas, e preparava virgens camadas para novas viagens. A tinta escorria levando todo entulho da minha antiga casa.

Então, eu, que chovia por dentro, começara a sentir uma delicada forma de calor...

Sentia a menta de alguns beijos deliciosamente roubados e aquele aroma de uma infância emprestada, não vivida, mas que cheirava à canela do mingau da casa vizinha, nas tardes em que eu, já camaleãozinho, me escondia entre as folhas e inventava vidas coloridas, para sobreviver à cinza selva urbana.

O que eu imaginava era mais real do que o asfalto bruto. Era a minha morfina, era a alma escapando do tédio daquele corpo rígido e insensível. A minha mente, um ciberespaço, onde eu navegava um mundo só meu. Minha tribo era eu.

Catava sonhos nos ventos, que viravam cata-ventos de palavras, que se tornavam o grande sol do meu deserto. E o amarelo ascendia entre as folhas! Eu tinha todas as paisagens por dentro, onde a poesia desabava...

Fora naquele escuro líquido que tudo ficara claro, e eu conseguira renascer...

Ou seria apenas mais uma reinvenção? Deixo, com as palavras, a palavra final...




(Raiblue & Jéfte Sinistro)

Em 28 de maio de 2009


Ao meu môrEco...pela cumplicidade...

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