Tuesday, April 03, 2012


RETORNO A MIM...

Deixei que me manipulasse para alimentar seu ego, mal sabia ele que quem dava as cartas era eu... Sabia de todas as suas faces, fases e disfarces... Ele podia até fingir-ser-aquele-que-eu-queria... mas fugia de si e se confundia, tentando fundir minha mente à sua tão alterada maneira de ver o visível...o que ele não sabia é que eu via além das suas órbitas...Atravessava os orbitais da sua loucura e o lia até em braile...era acostumada com o escuro e seus  claros enigmas... Ele usava a espada da palavra, e eu, o silêncio... No fundo, ele sabia de tudo que eu dizia sem falar...mas no oco da sua alma, o meu silêncio afundava e dava  no pântano da sua mente, que engolia toda e qualquer possibilidade de sentir...Sua razão era desequilibrada, descalibrada , por isso tombava, vez ou outra, com o vazio...Viagens-vertigens-ventanias sopravam seus dias sobre os populosos desertos  que criava ...Seduzia, mas não era seduzido por nada...senão pelo seu próprio jogo ...Trepava  e trapaceava seu próprio sexo,  gozava era com a mente e não com o corpo...Era o prazer do poder que jorrava pelos poros, olhos e palavras...Sim,  a palavra era, nele, quase um órgão, a sua maior zona erógena, e a usava como se fosse seu sexo a roçar o outro sem o menor pudor...E seu gozo vinha dos roteiros sustentados  pelos néons  da imoralidade, seu mais espesso prazer!  Só ele não via que o beck que acendia suas viagens, apagava sua memória e o lançava num poço sem fundo...mas era aí, neste submundo, que ele propositalmente se escondia...A luz da realidade doía na alma....e não queria sentir...sentir sempre dói...
 Se escondia sob a fumaça de suas viagens...brumas de solidão...
 Finalmente compreendi que por mais que eu lançasse cordas de sentimentos, não o alcançaria..., pois ele já estava a mil pés da realidade...mergulhado totalmente  em sua mente sombria parida das guerras frias geradas da quase  total inaptidão para o amor...coisa que nunca lhe ensinaram e  que , talvez, fosse tarde demais para aprender...
 Deixo-lhe, então, sob essa névoa, onde escolheu morar e não ver o sol que eu trazia em meus olhos, repousando sobre um verde mar de um continente possível...  


(RaiBlue)       

Wednesday, January 19, 2011



Doce. Enquanto solto meus dragões. A vida é doce, embora o beijo em boca amarga, às vezes. Mas ontem a noite jorrou mel. Salivei você do outro lado. Liguei. Tudo respirava acelerado. Conseguiria falar? E fiquei totalmente ligada nas ondas sonoras da tua voz. Decibéis de puro prazer...Vontade de voar. Do Arpoador. Daquela ponta deixar pra trás toda dor, e no meu delta de vênus totalmente lunática com essa lua imensa  testemunhando tudo, fazer você beber um oceano nada pacífico. É. O tempo não existe. O que há é o encontro. O encanto. O resto é ilusão. O real é ilusão. Ilusão de que um dia será diferente. O inusitado é nossa cria. O que nos salva de ser  sempre o mesmo. Por isso amo alucinadamente. Porque amanhã já sou outra. Para que a realidade não me padronize. Para que o amor não seja perecível como eu seria se permanecesse igual. Depressa demais. A vida é uma onda. Não mais intensa que os hertz da sua voz. Abalo sísmico das minhas terras. Mas não importa. Não pertenço a lugar algum. Sou estrangeira sempre que chego. Só em alto-mar eu sou. Qualquer coisa que bate dentro doida-doída-da-vida. Remendo os retalhos e faço um tapete-voador-pra-marrakeshi. Me corto. Junto os cacos. Me reciclo. Fecho ciclos. E salto. Tua voz foi meu trampolim ontem. O que vem depois de um salto?...O perigo do vício. A overdose do êxtase. A morte do tédio. E essa vontade doce de morar dentro de ti. Amanhã? O tempo não existe, lembra? E essa de agora não se repetirá. Já será outra. Por isso salto quantas vezes for preciso. Impreciso é pensar no que virá enquanto a vida está sendo. Escorrendo. E eu felina lambo cada gota...doce, muito doce..quando a boca sabe o que quer...quando a boca sabe degustar...        
                                                                                                                                          (RaiBlue)

Saturday, October 03, 2009



  
PORTODOSEMPRE ...

Pernoito dentro dessa saudade, e o chão se abre em neblina azul. Penetro o pálido vago, memórias de um subsolo onde você ainda ,deitado sobre mim, roça minha nuca e pinta em meu ouvido um futuro suspenso num sonho feito de um invisível inquebrável, como deveriam ser todos os sonhos, uma epifania nas veias, e as artérias me levando de volta a uma parte de mim descolada , que ficou em alguma Pasárgada, num vôo sobre esse mundão afora.

É muito tênue esse caminho que me divide entre um restinho de rio e mar... Trago o doce e o sal nas entranhas e um estranho sentimento de não pertencer a lugar nenhum, pois, no final das contas, essa vida nem é mesmo da gente...

Nômade ou extraviada, o destino parece sempre escapar, e os passos, cansados, vacilam em cima do muro das lamentações, talvez porque o sertão que corta as minhas águas, quase em extinção, saiba bem que não se espera muito dessa vida emprestada, quando tudo é seca... Segue-se o seco com o olhar perdido até que o céu chore por nós, e a chuva fecunde uma pontinha de esperança nas terras do coração que navega em qualquer gotinha de oásis...

E é assim, num tempo cada vez mais instável, que tua ausência flutua na saliva da noite, devorando meu sono. Dou-me inteira, como presa dessa fome, como se, ao ser tocada pela boca da noite, todas as distâncias se dissolvessem no meu paladar, com essa fragância que imagino teus lábios cheios de sol...
E um vermelho sopra as cortinas que lançam a jangada azul-cor-de-céu-portodosempre na rubraonda sobre o meu corpo, até o fundo das águas que me despem e fecundam meu sertão de puro encantamento. Navegar é preciso, ainda que em pleno deserto!

E a casalma inunda, as paredes transpiram sussurros que escorrem, pintando algas no teto transparente, e um sol transgressor sorri, com seus reflexos dourados em nossas espumas-lavas-lunares, levando o arco-íris para o sertão de cada um, que se dissolve em corais, no suor de luar, enfeitando nosso noturno mar...

Algo das algas derrama o verde frescor do instante vivido e há uma umidade de chuva sob ele, das chuvas que guardam os beijos dentro de cada gota que vira um oceano dentro da boca...

A saudade sempre me chega como um sax soprando furacões de silêncios de lampiões e sons cintilantes , sempre música no meu paladar, pois sempre gostei de lamber os sons das coisas, como um doce ritual guarani que resgatava o espírito ancestral de tudo que já havia passado por mim e voltava... porque na verdade nunca fora para sempre...

Toco tua voz, que me chega assim de longe, com a língua, sugo toda a polpa que tem o teu sotaque, bebo os sons de sim que vêm no vento de tua respiração, e sinto um tornado derrubando todos os nãos que roubam nossos sonhos, traiçoeiramente, como feitiço, coisa- feita pra não deixar a gente ser feliz, ainda que a felicidade seja clandestina mesmo...

O mistério está em esquecer um tantinho dessa modernidade pantanosa e ir buscando devagarzinho o que não está nas idéias, perder o juízo encurta qualquer distância!

É preciso enxergar aquilo que está no sem fundo dos olhos e da vida, inesgotáveis fontes de mistério, lugarzinho navegável até a barquinhos de papel. Basta não ter pressa, acender a luz de um lampião na varanda dos sentimentos e escutar os vaga- lumes trazendo alguma mensagem secreta das estrelas...

Abandonar a lógica e sentir o aroma..., e o paladar experimentará de novo a vida... afluente de magma trazendo de volta o calor humano ao homem-de-lata que nos tornamos...

Temos que sair das jaulas que não nos protegem e plantar
uma flor no asfalto, há de brotar um Éden não artificial...
este que sempre brota dessa saudade estampada
com flores-fluviais-feitas-de–correntezazul...

“Shimbalaiê quando vejo o sol beijando o mar... Shimbalaiê toda vez que ele vai pousar...” ... e meus olhos re_pousam em ti...
pássaro livre vivendo anos nos segundos de um bater de asas...ancorando meu vôo em teu portodosempre...e teus olhos crescem feito duas luas se pondo em mim...

Basta um piscar pra eu te amar...e tudo se pôr em seu lugar...
Basta o movimento dos barcos e o encontro se dará...breve e infinito como a vida...

(Raiblue)

Madrugada de 24 de setembro de 2009./ Pensando em meu solzinho...

Saturday, July 11, 2009



O DRONE DOS CÔMODOS DA ALMA


Não diga, “eu encontrei a verdade”, mas antes, “eu encontrei uma verdade”. Não diga “eu encontrei o caminho da alma”. Antes diga, “eu encontrei a alma caminhando o meu caminho”. Para a alma caminhar em todos os caminhos. A alma não caminha em uma linha, nem cresce como um junco. A alma não abre-se, como uma lótus de inúmeras pétalas.

(Khalil Gibran, O Profeta, 1923)



Eu quero os contornos da noite, quando as sombras são silhuetas de coisas que existem, mas não se definem, porque defini-las seria reduzi-las a uma imagem. Seria como querer definir Deus. Ele não é um conceito nem cabe num retrato. É a idéia sobre a coisa que a faz existir, e uma idéia está sempre singrando. Logo, existir ou não existir? Eis a equação cuja solução não pertence ao conjunto real...

A noite é ampla, não cabe numa moldura. É fechadura por onde se espia as possibilidades, mas nunca se abre as portas totalmente, a fim de ampliar os caminhos. As verdades habitam as penumbras. A sombra é sempre um desafio, um labirinto que nos salva da realidade estática. Não, não quero a definição que estagna o meu pensar. A idéia é livre. Entender seria trancar-me numa casa e esquecer dos entornos.
Os contornos, que definem o espaço, também são muralhas que impedem de ver o horizonte se derramar no mar ou o mar engoli-lo, depende de quem olha. Só podemos escolher as paisagens, quando não possuimos grades no olhar: Open Your Mind e a sua alma lhe alcançará!

Entender aprisiona, enquanto a dúvida é um exercício de liberdade. Viver é vasto, é sempre uma idéia em movimento; eu sou múltiplo, o tudo sempre está no verso das coisas, sempre no avesso indecifrável. Prefiro a desordem das palavras dissolvida na minha, entrecortando a escuridão, amplificando o silêncio grávido de coisas por dizer, que se misturam ao barulho do refrigerador e ao tic-tac do relógio inútil, visto que o tempo, em mim, acelera e desacelera involuntariamente.

Nunca me encontro onde estou. Sou assimétrico e sem métrica, poesia instintiva que devora o cotidiano. Tenho um olho diferente do outro, e vejo tudo ao mesmo tempo. Um olho grita e goza, explicitamente, no implícito do que vê; o outro, silencia e pondera, implicitamente, no explícito invisível.

Não quero no pulso a inutilidade do tempo que gira ao redor de si próprio à sombra de um tic-tac frenético. Inúteis, volto a dizer, inúteis. Nunca concebi um tempo que vivesse em função de si, escorrendo num pulso que não o do meu coração. Nunca concebi um tempo que não o eterno, infindo, um tempo onde caiba o meu silêncio.

Meus lábios guardam a brasa viva que purifica os dados de minhas palavras, que nunca sei se jogadas à sorte ou se ensaiadas em algum outro tabuleiro da memória, ainda que eu prefira o verso infindo do silêncio - esse drum cadenciado de minha canção noturna - que em uma retina dorme, e em outra grita.

A noite em néon cai sobre minha cabeça alucinada pelas ondas sonoras desse diálogo impossível entre os meus olhos. Quanto mais vejo, mais tenho certeza da dúvida.Quanto mais busco auto-conhecimento, mais me estrangeirizo, porque pensar é transgredir qualquer limite, é um eterno estranhamento.
Rasguei as ideologias iluministas para acreditar em minhas verdades relativas escavadas nas sombras, pois não queria apenas reproduzir o que os outros viam.
Sinto-me saudavelmente divergente, servo e senhor de mim, com o destino fazendo piruetas!

Como encontrar unidade na pluralidade dos caminhos? Como ser um, se em cada olho habita um outro tão contrário? Como me perder nas bifurcações da noite, se a verossimilhança me une a ela? Como um morcego, sobrevôo cegamente o paraíso da dúvida, esse escuro aceso que não me deixa ser alienado a uma única prepotente verdade. Bebo cálices de incertezas, brindando a liberdade do pensamento e repudiando as ideologias mortas que tentam impedir a revolução.

A minha arma é a minha asa, alma a caminho de casa,no infinito azul...

O drum do silêncio continua a ecoar, e as dúvidas a dar uma volta completa dentro das retinas; partem e retornam ao mesmo ponto, mas nunca da mesma forma, já são outras, inesgotáveis, soprando o balão dos sonhos no céu das divagações...

No globo ocular, psicodélicas viagens à procura de Deus, a única indefinível certeza, que a tudo define, e é, em sua existência, o mais profundo dos mistérios e, por vezes, parte do meio da dúvida.

Sempre preferi as perguntas às respostas, afinal são as perguntas que nos impulsionam a um novo salto, na maioria das vezes, experimentado à luz do escuro. As dúvidas são como a noite: um fenômeno diáfano. Mas, a certa altura, os impulsos não são mais que giros ao redor de mim. Mais da metade das dúvidas humanas é assim, de saltos seguidos, traçando um ângulo de 360°. Mas que bom que há gente que não se guia só pelos olhos, mas pela força dos demais sentidos, e exercita bem os saltos no coração da penumbra. Esforço-me para ser um destes, daí minhas olheiras, resultado de mergulhos no inexplicável, porém profundamente sentido.

O diálogo de meus olhos, em certas horas, é quase vesgo e, então, não sei se prefiro suas controvérsias ou o discurso movente da mudez de meus lábios. As palavras sempre me antecedem, mas o estrondo do inaudível está ainda um passo à frente e ressoa nos cômodos de minha alma, como um drone. O silêncio é um tornado surgido do bater de asas de uma mariposa, que se esforça sob o túmulo estrelado.

E é nesse lugar, onde a metamorfose busca o impossível, que o pó daquilo que foi passa a ser o início de um novo mistério, pois quem poderá afirmar como terminará o infinito?

Cai uma estrela da minha lápide azul em meus olhos vesgos, fechando-os como se fosse as mãos de Deus, e, finalmente, enxergo o universo nu, do subsolo de minha secreta alma.

E a borboleta continua a desvendar janelas no fundo rio que atravessa o eterno...


(RaiBlue&Jéfte Sinistro)


Em 07 de julho de 2009

Que nossas línguas continuem sempre bluesinistrando, meu amor...obrigada!

Friday, June 19, 2009




SILÊNCIO DE CARNE E OSSO


“Perfeição demais me agita os instintos...”
(Zélia Duncan)



O inverno se aproximando e quarenta graus no coração. Tempestades no deserto da aorta, entupida pela ferrugem do tempo.Casaco de flocos de neve, para congelar o impulso, coagular o vulcão subcutâneo.Terremotos de sentimentos, abalos sísmicos nos icebergs espalhados entre os pelos.

Aquele que habita o mais profundo de mim não é o que os outros vêem. Daí a contração muscular, a tensão dos fios que tentam conectar’ eus’ tão distintos. Me perdi entre um e outro. Caramujo de mim,vou me enrolando como se quisesse estrangular a vida, no fundo das areias pantanosas. Sou um labirinto de máscaras. Em qual delas baterá o meu coração?

Estou no meio da zona do indefinível. Seguro no trapézio, mas não consigo saltar, porque não sei para que lado quero ir, pois sei que escolhas implicam em renúncias. Não sei qual ‘eu’ me trará alivio nem aquele que não quero mais ser. Há um equilíbrio nesse caos de minha cosmologia, uma rebeldia para disfarçar o medo daquele que nem conheço, mas que já está aqui, latente, como uma sombra que ninguém vê, mas que se projeta sob os meus passos.

Sou mais o que penso ou o que escapa das grades do pensamento? Os gestos planejados ou os impulsos acrobáticos atravessando as artérias em saltos bárbaros?

Penso que o meu ‘ser pensante’ às vezes não me deixa ‘ser’, de tanto que me julga, modela, padroniza e questiona meus instintos, como senhor absoluto. Enlata-me para ser devorado, sem efeitos colaterais, para aumentar meu prazo de validade.
Mas tem algo em mim que quer inflamar e não apenas durar.

Pensar, às vezes, me deixa exausta, como se eu estivesse nadando contra minhas próprias correntezas. Pensar, às vezes, é cortante, aborta os sonhos, faz sangrar a alma.

Num silêncio de carne e osso, meu coração granada implode, mas ninguém ouve. Os tímpanos das cidades desalmadas estouraram. As máquinas substituíram o humano, a voz agora é uma gravação programada. Os ouvidos foram arrancados. Quase não há diálogo entre os olhos, senão quando a palavra digitada armazena a alma. Existem e-mails que beijam a pele e acalmam ou ardem!

O tumulto é de pedra rolando goela adentro. A pedra agora está dentro de nós, sem nenhum caminho. Há várias pedras, uma muralha cercando o coração. Proteção ou prisão? Quanto valerá, afinal, um pensamento, sem pitadas coronárias vermelhas? Ao pensar isto, senti, imediatamente, um cáustico enjôo.

No meio da náusea, brota uma flor que insiste em perfumar o hálito, como quem aguarda um beijo, quando o trem atravessar a cidade de aço e alcançar a estação de calor.

Contudo, por enquanto, hibernada nesse silêncio corrosivo, a esfinge da fé tenta decifrar meus enigmas. A febre não passa. A dúvida galopa em meus campos, que pensei ser tão maduros, indomável fera a rondar meus poros, como quem fareja uma saída.

As portas do inverno abertas, o mar congelado, o mergulho adiado para um verão que nem sei se verei. Convulsão, choque térmico. Os círculos fechados dentro dos olhos abertos, e uma dantesca fome que nada sacia. A vida vazia, eu vazante, vazada, e a tinta vermelha escorrendo.

A veia aberta tentando expulsar coágulos de pensamentos que impedem o trânsito da emoção. Pressão ocular elevada, quase levando à cegueira. Ensaios? Desespero.

Preciso ver para crer ou crer para ver?

De novo, ninguém me responde. Sou mais um enlatado, na prateleira dessa sociedade de consumo, que já perdeu o paladar para as coisas naturais, há muito tempo.

Macrobiótica esperança mastigada até o ultimo grão.

A inteligência artificial e a geração digital comandando o destino, como deuses da astronave Terra. Todos nós astronautas de um universo cada vez mais perdido nos cyberespaços, e a odisséia dentro de nós.

A identidade se desintegrando nas clonagens, nas montagens digitalizadas.' Admirável chip novo! 'Fios substituindo veias. O ponto de mutação perdido na nova era, sem nenhum Zaratustra nem Gentileza.

E os livros nas estantes, as histórias amarelando, os heróis esquecidos em suas epopéias. O amor, pura representação. Sentimentos pensados e não vividos. Uma ficção real.

Tudo agora imediato: o contato e a desilusão; a felicidade e a dor.
Tudo breve, só não a neve que encobre as cidades, congelando o coração. Porém, ainda ouço uma melodia que me faz respirar na brecha de um sopro de sax, um pressentimento guardado em segredo na caixa de Pandora, no fundo do meu secreto abismo.

Alguma coisa ainda vibra sobre o gelo e entre os meus pelos...
Uma música derrete até mesmo o aço...pode reinstalar o sistema...quiçá...

Afinal, somos feitos de silêncios e sons...

(Raiblue)



Em 13 de junho de 2009

Friday, June 12, 2009





CAMALEÔNICO CASULO



"Quem iria conhecer essa imensa beleza
Quem iria conhecer um transe santo
Quem iria conhecer essa respiração milagrosa
Para inalar um confronto carregado de coragem"
(Bjork - Cocoon)


Bebi a chuva que invadia repentinamente o meu deserto, a fim de que o comprimido do tédio descesse mais rápido goela adentro. Contudo, acabei levando toda tempestade junto, e, agora, a enchente desorganizava toda lógica dos meus compartimentos, aparentemente acomodados dentro do previsível.

Os desertos são assim: longos períodos de calmaria e, de repente, as tempestades de areias lançadas pelos fortes ventos.

Como um camaleão, na falta de vegetação, pois o verde há muito tempo desapareceu de minhas terras e a esperança já não voava mais por aqui, tentei me esconder sob as dunas de pensamentos.Engolir o tédio era torturante, mas para livrar-me dele seria preciso descascar camada por camada das idéias que sustentavam o meu falso equilíbrio.

Sob os olhos vermelhos e escaldantes do sol que castigava o solo de meu pensar calejado, brotava a indagação, quase como uma miragem, das areias de meus ‘eus’ : o que amargava mais, os comprimidos de tédio ou o descascar dessas camadas quase sedimentadas em meu ponto de aparente equilíbrio?

Pertinente, porém tempestuoso demais para o instante.

A essa altura o vento se impunha com mais força, desconstruindo e reconstruindo as dunas dos pensamentos onde eu estava. Parecia trazer, também, um cântico familiar entre a poeira que carregava como um fardo - não para ele, mas para mim e os demais andarilhos desse pedaço de chão.

Fui seduzido por aquele cântico, numa espécie de hipnose. Tentava resistir, temendo o que encontraria sob aquela névoa, que mais parecia uma cortina do tempo que se desfazia e me lançava num vácuo. Era como se eu fosse adentrar um palco, esperando ver um espetáculo inusitado e, de repente, desse de cara comigo mesmo, como protagonista. As paredes eram espelhos, e eu repartido em vários. Foi quando percebi que os andarilhos eram ‘eus’ que se procuravam.

Seria uma revelação?

O tempo parecia furioso, me sugava como um moinho para dentro de um espaço desconhecido. Ao pisá-lo, foi tão estranho! O chão era inconsistente como um mangue. Talvez fosse a poeira misturada às minhas águas represadas.
A sensação era exatamente esta. Sabe aquela arte de colocar a farinha no caldo para fazer o pirão?Pois era assim que estava me sentindo, remexido, pisando em algo que não era nem duro nem mole, um terreno indefinível em sua textura.

Seria movediço?

Do tédio do rígido previsível, fui ao pavor daquilo que me tirava o chão, que me deixava solto no ar, sem gravidade, ou melhor, era algo gravíssimo, e me fugia ao controle. Porém curioso, era assustador e leve, ao mesmo tempo.

Agitado, comecei a sentir um cheiro esquisito, coisa que há muito não sentia. Pensei que a aridez do deserto houvesse me roubado o olfato para os detalhes dos entornos.
Mas, milagrosamente, o apurou ainda mais. O aroma penetrava meu casco de camaleão, que começava a se transfigurar, numa espécie de metamorfose. Todavia, invés de sair do casulo, a sensação era de estar entrando nele, de volta.

Era como se o tempo – que ali cheirava a menta e canela – me tomasse pelos braços e me levasse a uma prisão. Não uma prisão qualquer, mas uma caixa mágica. Um casulo onde o aroma costurava novas asas em mim. Sentia como se tivesse nascido velho e, ali, estivesse rejuvenescendo... Não sabia ao certo o que sentir.

Dentro do casulo tudo era penumbra. Eu tateava as paredes tentando enxergar os contornos do lugar. Havia algo diferente, ali. Era como se, a cada passagem de minhas mãos sobre as paredes internas do casulo, fossem bordadas palavras mágicas que se renovavam a cada toque. Eram palavras celestes, ora cinzas, ora azuis.

E, nessa oscilação, elas se soltavam e boiavam num líquido viscoso, até grudarem no meu casco, já amolecido e não mais enrugado. Iam despindo, uma a uma, minhas couraças.
À medida que trocava de pele, sentia nascer um outro ser.
O amniótico líquido apagava digitais, que nela estavam impregnadas, e preparava virgens camadas para novas viagens. A tinta escorria levando todo entulho da minha antiga casa.

Então, eu, que chovia por dentro, começara a sentir uma delicada forma de calor...

Sentia a menta de alguns beijos deliciosamente roubados e aquele aroma de uma infância emprestada, não vivida, mas que cheirava à canela do mingau da casa vizinha, nas tardes em que eu, já camaleãozinho, me escondia entre as folhas e inventava vidas coloridas, para sobreviver à cinza selva urbana.

O que eu imaginava era mais real do que o asfalto bruto. Era a minha morfina, era a alma escapando do tédio daquele corpo rígido e insensível. A minha mente, um ciberespaço, onde eu navegava um mundo só meu. Minha tribo era eu.

Catava sonhos nos ventos, que viravam cata-ventos de palavras, que se tornavam o grande sol do meu deserto. E o amarelo ascendia entre as folhas! Eu tinha todas as paisagens por dentro, onde a poesia desabava...

Fora naquele escuro líquido que tudo ficara claro, e eu conseguira renascer...

Ou seria apenas mais uma reinvenção? Deixo, com as palavras, a palavra final...




(Raiblue & Jéfte Sinistro)

Em 28 de maio de 2009


Ao meu môrEco...pela cumplicidade...

Tuesday, June 02, 2009

PRELÚDIO DE INVERNO






São 18 horas de uma terça-feira comum. Chego do trabalho e, depois de alguns dias asfixiada por aplicação de provas e correções, ao abrir a porta de casa, vou jogando, sobre a mesa, minha bolsa, pastas, livros, cadernos. Vou deixando, pelo caminho até o meu quarto, meu All Star azul, que me dá sensação de estar sempre pisando nas nuvens, já que é da cor do céu e traz estrelas no nome...

Tiro a camiseta preta , que contém uma frase do meu quase favorito poeta, dizendo que “Tudo vale a pena,se a alma não é pequena...”, e, à medida que vou me desfazendo do peso da matéria sobre o meu corpo, vou sentindo mesmo minha alma alargando e a sensação de que meu poeta pode estar certo.

O cotidiano é, muitas vezes, cruel demais! Ditador, vai conduzindo autoritariamente
a vida.Quando percebemos, o tempo passou, perdemos muitos trens ( no sentido denotativo e conotativo da palavra) e grandes viagens, porque não soubemos navegar no impreciso, porque não sopramos a vela nós mesmos,deixamos a responsabilidade toda com os ventos.E ‘Ele’ já havia dito:-Faça sua parte que eu te ajudarei-Portando, nem todos os ventos são confiáveis.

Ventos são traiçoeiros,quando não sabemos, de fato, a direção que queremos seguir.

Tirar instantes como este, para nos desnudar de tudo, para entrar em contato íntimo conosco, é fundamental para perceber o que circula em nossas veias, além da pressão das preocupações diárias. Liguei o som, escolhi, de olhos fechados, o CD que eu colocaria para me acompanhar durante o banho. Apaguei a luz, apertei o play, e fui para o chuveiro. Enquanto a água escorria sobre minha pele, sobre o ruivo dos meus cabelos, rubro dos seus fios parecia se dissolver ...o turqueza da tarde dava lugar ao escarlate da noite em mim...

E, então, a voz da Adriana surgia mansamente e parecia falar por mim,
parecia falar em mim, dizendo:

“Tarde turquesa, quarenta graus
Talvez porque você não esteja, tudo lateja
Tarde sem nuvens, cinqüenta graus
Talvez por sua ausência, tudo derreta...
Noite sem ninguém, nada se mexe
Meu sonho, nosso amor é sério
E você em outro hemisfério

Enquanto tudo derrete, enquanto tudo derrete,
Enquanto tudo parece... derreter”

E enquanto a canção ecoava lá dentro, coloquei o chuveiro na temperatura máxima
para elevar ainda mais a minha...queria sentir a convulsão até a última gota...queria o calor derretendo a ausência, trazendo para perto o longe ...

Talvez não quisesse enxergar que o longe é que estava cada vez mais perto...
Cada vez mais próxima a distância e sua geleiras...

A noite chegou, e foi inevitável o frio...

(Raiblue)



Quando uma saudade bate à porta...