Friday, May 29, 2009






ANIMAL ALADO



Algema-me as mãos. Imobiliza meus passos. Prende o meu pássaro em seu labirinto.

Quer me devorar, eu sei, eu sinto, ainda que o sentir seja, agora, apenas uma fresta. Vem serpenteando com seu veneno na ponta da língua, querendo arrancar-me a maçã das retinas. Desmata o meu Éden, seca o verde dos meus olhos e dos rios que me faziam correnteza. Tudo em nome do equilíbrio. Mas meu coração trapezista necessita do perigo de cair na rede. É a adrenalina que me lança aos céus de Santo Amaro. Habito a corda bamba do sentimento, porque o chão não me desafia. Do chão não passo, sem as minhas asas.

E agora, ela faz-me trocar minhas sandálias de couro, de andarilho, por suas botas maquiavélicas, impermeabilizando os caminhos. Endurece meus músculos a fim de quê eles não sintam mais o toque. Estou inseguro em sua segurança. Ela não me convence totalmente com seus argumentos. Travamos, então, a mais intensa batalha. Não há saída, nenhuma janela nem espelho. Sua esgrima é certeira no meu peito: ela quer arrancar o meu coração...

Em gestos hábeis ela encena passos não ensaiados sempre à minha frente. Entendo que não seja, então, uma batalha armada, mas uma dança... um baile onde mãos, olhos e falas ora convergem, ora divergem. O próximo passo é sempre uma dúvida, pra mim. Mas ela estende a mão num convite ao ritmo compassado dos pulsos... e eu seguro sua mão, ainda sem dar um passo.

Aprisiona-se num cinza por trás das cores, e oscila entre o azul e o rubro, dentro de nosso caleidoscópio. Cultivo uma flor em seu canteiro, mas é pouca a luz. Por isso lhe ofereço um canto novo, longe do edifício onde fez morada. Hesita em ceder...

Mudanças sempre abalaram sua estrutura. A pouca luz a mantém firme em seus propósitos, é seu escudo. Uma rosa poderia fragilizar suas convicções, pois o perfume seduz o juízo. Poderia ser um desvio para o seu equilíbrio. Ela me quer dançando em sua penumbra, quer-me entregue às suas mãos fortes, sem indagações. Será mesmo minha companheira ou inimiga? Esta pergunta era arterial, corria pelas veias, era o corpo oscilando diante do seu domínio. Eu não vou, inteiramente. E ela não destranca a porta para o mistério. Quer a clareza dentro do seu escuro. Mas a minha dúvida rodopia entre nossas mãos, e eu não saio do lugar. Estou no alto do seu edifício e não tenho pára-quedas para saltar. Saltar também exigiria uma entrega total: uma vez pulado, não poderia mais retornar.

Seus olhos são firmes, como se nunca tivessem ficado em cima do muro. Ao contrário dos meus, que, tão relativos, adoram mudar o ponto de vista: ora asfalto bruto, ora oceano sem fundo. Ela me contorna, com sua dança, sapateia em minhas dúvidas e me venda com suas certezas. Oferece-me um cálice da verdade dela. Será a mesma minha? O cheiro é tentador, mas ainda não bebo.

A velocidade dos questionamentos cresce inversamente proporcional à velocidade de nossa dança.

Em algum lugar de sua retina, deixava escapar detalhes fragmentados de dois pesos diferentes espalhados pelos contornos de seus olhos. De um lado, quedas d'água. Doutro, uma represa. O chiado de suas águas esconde uma razão que vem da nascente... das águas cristalinas que emanam de sua terra.

Eu sigo cuidadosamente o seu chiado, desbravando o vale de sua penumbra... um passo atrás e um pé de cada vez - como se aprendendo um novo passo de dança. Olhar para todos os lados se faz necessário. Mas, aqui, as árvores parecem se mover, dando a impressão de que nunca se passa duas vezes no mesmo local, e todos os animais salivam à minha presença.

Sou capaz de ouvir seus rugidos, tão intensamente, que se confundem com o grito do meu silêncio. O animal sou eu, preso em sua floresta, jaula cheia de promessas, porém o que ela deseja mesmo é domar o meu pássaro. Ela extinguiu a serpente do seu reino, mas esta atravessa minha medula e me traz a sanidade através do seu veneno, antídoto contra a monotonia do seu império de certezas.

Ela tem os dentes afiados, mas eu ainda tenho minhas asas... Quem devorará quem? Haveria uma possibilidade dela compreender que sou um animal alado? Poderia até dançar com ela, se me deixasse voar...

Enquanto escuto o chiado vindo do fundo de suas águas, ensaio passos de vôos para além de suas mãos...

(RaiBlue & Jéfte Sinistro)

BlueSinistro, em maio de 2009.


Um instante único e inesquecível...

Saturday, May 23, 2009

UM(IDADES)...





Hoje, acordei num entusiasmo!! Ah,esta palavra é tão saborosa, que só de pronunciá-la já se altera alguma coisa em mim, dá água na boca! Significa, em grego, ‘ter um Deus dentro’. Hoje eu sabia que ele estava aqui, comigo, em cada detalhe que assobiava o dia...


Amanheceu chovendo muito, mas, surpreendentemente, o sol ardia silencioso, em minha pele. Eram, ainda, vestígios de sonho cintilando nas minhas idéias...


Estava pronta para atravessar qualquer tempestade, ao menos por hoje. Amanhã, talvez voltasse a nublar, sei bem das minhas bipolaridades: de repente, o tempo fecha ou abre, em questão de segundos, onde algo dispara algum alarme dentro de mim.


A nau do destino, nesta amanhã, naufragaria, pois, neste exato momento, não era o mar que me continha, era eu quem o trazia por dentro.Eu o levaria para onde quisesse, o mar era (m)eu!


Essa sensação me encheu de coragem de arrumar minha desordem, ao menos parte dela, tocando em algumas coisas frágeis guardadas no fundo do armário, no bolso de um casaco ou num baú de argila pintado de estrelas do mar. Havia um oceano ali dentro, onde, há um tempo atrás, eu me afogaria, mas hoje não havia o menor risco.


Aproveitei a chuva para lavar a casa, levar as coisas que não faziam mais sentido.Deixei a água escorrer por fora e por dentro.Depois, deixaría-me quarar a céu aberto. É bom manter uma certa umidade relativa nas coisas, principalmente em mim ...


Por isso, não joguei na chuva a rosa que estava dentro de um livro, o mais especial, pois a chuva não mais a faria brotar. Ao menos , ali, ela retinha a umidade do instante vivido, ainda que numa aparente secura...


Há certas umidades que são secretas, nem precisamos tocá-las com os dedos, basta a mente estar acesa..., e ela mina , numa espécie de telepatia...


As rosas sempre exalam perfume em dias de chuva...principalmente aquelas secretas...púrpuras...


Deixo a chuva se misturar ao meu sol....nasce um arco-íris no meio de mim, quando a minha rosa púrpura orvalha...


Depois, coloco as lembranças para quarar no varal do tempo...Porém, hoje, eu quero toda umidade aqui dentro,...como um Deus a regar meus desertos...


'O futuro foi agora'...por mera distração...



(Raiblue)

' A felicidade brota em horinhas de descuido...'

Saturday, May 16, 2009




Metamorfoses do Coração...



Meus olhos desfiavam a noite, catando estrelas nos segundos intermináveis da ausência , líquido céu a me afogar na escuridão.
Morcegos atravessavam o abismo dos meus mórbidos pensamentos , em acrobacias assustadoras , meu castelo em ruínas , onde reinava sozinha , meu exílio.
Fugi do amor , essa serpente que quase me devorou , fazendo-me provar o vinho e o veneno , em sua língua lânguida e sedutora , anunciando o paraíso e , depois , ao umbral me arremessando...
Sentia-me como um inseto , minúsculo e desprezível , não desejava mais nenhuma possibilidade de encontro , estava enredada numa metamorfose kafkaniana , precisava continuar existindo , mesmo me sentindo horrível , um ser estranho a mim mesma ...
Nos olhos arcanjos do amor , penetrei infernos dantescos , falso espelho a distorcer a imagem , a guardar demônios nos labirintos circulares de sua mística pupila dilatada , enclausurando - me
no fundo da íris , porões da alma.
Seu olhar era poético , campo magnético a me envolver em versos molhados de sonhos e pecados , lassos desejos que rasgaram de vez minha sanidade e me atiraram na loucura mais esplêndida e perversa , da qual fui rainha e prisioneira , algemada ao império dos sentidos , numa eterna luta por poder...
Pensando dominar , fui detida , presa às suas grades de ferro , enferrujadas pelo tempo , esse mago senhor repleto de encantamentos , que provocam encontros , mas , também , o pranto , o suicídio de se perder de si mesmo e se entregar às garras desse animal faminto e indomável chamado amor...
Do alto da torre desse meu esconderijo secreto , avistava um oceano nada pacífico , cujas ondas se confundiam com a turbulência dos meus sentimentos ... marés de lágrimas.
Minha mente pintava sombras de Goya , paranóia intensamente carregada, puro expressionismo da minha dor...
Não adiantou fugir ... Meus labirintos kafkanianos não me levaram a lugar algum...
Ah , o coração....Esse músculo involuntário insistia em pulsar , até mesmo num ínfimo inseto ...Descobri que esse orgão pulsante era do mesmo tamanho em qualquer ser...do mais nobre ao mais miserável e peçonhento...Não obedecia à razão , era pássaro selvagem , impossível de ser domado e detido na gaiola da mente , queria mais....Ainda que machucado , estaria sempre em vôo..., nem o céu seria limite, pois se tornara livre...
Após um longo período de reclusão , o coração derramou os pensamentos que o atormentavam , refez suas asas na penugem do tempo e , em
revoada , partiu sem destino.
Em pleno vôo , o inseto se metamorfoseou em Pégasus , atravessando as sombras da noite, redescobrindo o azul do firmamento , fazendo florescer rosas coronárias de um vermelho ainda
mais intenso, nos arteriais caminhos...
Aquele mesmo tempo que desfez o sentimento, agora , na mais absoluta escuridão , acendia constelações incandescentes , clareando tudo , espantando os morcegos , me salvando do beijo (i)mortal do vampiro que rondava minha solidão , em busca de sangue... ,
o sangue jorrado da morte do amor ....
Redenção!! Finalmente compreendi que morrer significava renascer ...na verdade nada se refez...apenas continuou...uma passagem repleta de mistérios...
O corte estancara , apesar da cicatriz , que logo , logo , desapareceria , como a vida que cotidianamente se renova , ficando apenas uma linha tênue de um passado ácido que não me pertencia mais.
Drummond tinha razão, 'amar é mesmo um verbo intransitivo'... '
Estava preparada para o pouso...
De volta à vida , após um coma profundo , eu parecia mais iluminada , talvez por ter mergulhado tão fundo no meu abismo e encontrado a estrela dançante , aquela cintilante que , a partir desse instante , em minhas retinas , estaria sempre a bailar...
Aos poucos, fui retomando o meu ritmo diário , caminhava livre pelas ruas , sem esperar nada , espalhava um aroma de eternidade por onde passava , desconfiava que ela tinha um cheirinho de sândalo...
Olhava o mundo com outros olhos, com certeza , com uma certa estranheza de quem acabara de nascer...Meu corpo havia , de fato, rompido o casulo do medo e renascido, numa outra pele...outra casca..., contudo , meu espírito era o eterno viajante de olhar místico que incorporava personagens a cada ciclo vivido desse espetáculo onírico que estamos sempre a dramatizar...
Seria o amor uma invenção?
‘ Ser ou não ser , eis a questão...’
Reinventei-me!
Minha nova composição , uma trama tão antiga e tão moderna :
Shakespeareana mente... e as tragédias do coração....
E nos palcos da pós-modernidade , o romantismo sempre em cartaz ...


(Raiblue)

Monday, May 11, 2009

CÁLICE DE VIDA TINTA!!!



Não se tratava de uma relação a mais. Não. Nós nunca nos vimos, mas nos conhecíamos, ou melhor, nos sentíamos. Sentir é a melhor forma de conhecer.

Quando começou ou quando terminará é um mero detalhe. O que importa mesmo é a viagem. As paisagens que vamos pintando pelas avenidas do imprevisível.Do indefinível. Indefinir nos dava total liberdade de ser. E éramos. Éramos o que queríamos ser.

Ele é a rua que me leva de volta a mim, aos meus mais secretos desejos.
É o meu país das maravilhas , e eu, sua Alice, que enxerga tudo grande, imenso! Aquela que acessa os portais para as terras do prazer!

Ele é o meu cúmplice. Nosso delito é apenas ser feliz, essa insustentável leveza. Desde quando nossas línguas se reconheceram, que ele mora em minhas retinas. Sim, nós entramos no outro através das palavras sussurradas nos olhos..

A melhor parte do meu dia é quando volto para casa. Durante o caminho, protejo meus olhos para que nenhum vento o arranque de mim. Fecho os olhos, para guardá-lo dentro, secreto e só meu.

Chegando em casa, escolho a música que nos embalará nessa noite sempre nova, porque sempre ele vem diferente.Tem uma música que já se tornou nossa.Eu sei que ela o trará até mim. É quase uma invocação. E, assim, começa o ritual de passagem a um outro plano.Vou largando a roupa pelo caminho, peça por peça. Nua, sob o chuveiro, a água e a música preparam o corpo e a alma para ele.Pêssego na pele, hidratando as curvas , para que ele deslize melhor e se embriague da fruta que mais gosta, escorrendo entre os meus pelos. É um ímã, uma armadilha.

O pensamento abre a fechadura da pele, como quem sabe exatamente o ponto de desequilíbrio.

E ele vem, quando me deito no edredon azul, nosso mar, e Tálassa e Urano celebram nossa união no horizonte inventado dentro de nós. É mar e céu fundidos no fundo de nossas águas. E então começa a aventura pelo reino dos sentidos. Sua língua contorna lentamente meus lábios, lubrifica as idéias....e eu vou abrindo minha boca devagar e sugando sua língua, roçando-a como uma serpente. E então são duas línguas entrelaçadas provocando ondas turbulentas entre as pernas, correntezas atravessando toda a delicadeza das sensações...até nos tornarmos selvagens,
docemente selvagens...

Mordo em sua boca a maçã...e descubro um Éden. Em nosso reino não há pecado, é proibido proibir. Tropicálias madrugadas!!!

Com ele toda noite é dionisíaca, com Baco a nos servir cálices de vida tinta!!!

Embriagamo-nos, enquanto a vida é extinta lá fora...

(Raiblue)



Àquele que torna meus sonhos mais tintos...

Tuesday, May 05, 2009



A(há)mar adentro do silêncio ...



“O que será , que será, que dá dentro da gente e que não devia...? ”

... e a voz do Chico ecoava em mim, como um estrondo, numa noite de sexta-feira, a mais silenciosa de todas , uma preparação para o inverno que vinha chegando de mansinho...

Uma queimadura suave, em alguma parte interna , ardia , naquela madrugada vazia, tornei-me incomunicável, não cortei os pulsos, porém cortei todos os fios que poderiam me fazer escapar dali, desliguei o telefone e o interfone , não queria conexão alguma, abismei-me no meu silêncio, queria chegar ao fundo de mim e descobrir o que era real e inventado, o que era de carne e osso e o que era teatro...Tive um dia duro, representar cansava-me, retirei minha máscara e tentei relaxar.

Preparei uma taça de sorvete de creme com papaya misturado ao licor de Cassis, desliguei a luminária vermelha e me joguei sobre as almofadas coloridas no tapete azul da sala....

Ardia por dentro, enquanto aquela coisa gelada descia pela garganta, provocando vapores devido ao choque térmico....Esfumaçava-me....Estava exatamente assim, perdida entre as variações de temperatura do corpo e da alma...

Engolia o sorvete como se quisesse esfriar aquela escuridão, quase brasa, que sempre se apoderava de mim durante as madrugadas repletas de muitos silêncios secretos...Tentava resistir ao sono,tentava fugir daquele homem magnético e solar que surgia assim, no meio da noite , sempre que eu fechava os olhos, ele era minha aurora boreal....meu sol da meia-noite...Mas minha luta era vã,ele sempre me vencia...No íntimo, talvez, minha solidão tornara-se irresistível, para que eu pudesse permanecer nas minhas leituras e viagens, na escuridão necessária à penetração da luz dos sonhos repletos de volúpia e de uma liberdade impossível de ser tocada no plano real ; no onírico mundo, permitia-me ser outra, diferente daquela que todos conheciam, uma outra inventada, que, talvez, fosse, de fato, eu mesma..., e aquela que atuava na realidade , sim , era a personagem que eu vestia...

Nesse palco, por trás das cortinas que separam o real do imaginário, nasceram poesias , contos , músicas e todos os amores...Sim, amor, porque antes de se tornar físico, ele é imaginado, nasce de um olhar..., de uma voz... , das palavras...,de um perfume... Tudo isso toca a gente , antes mesmo das mãos...; quando os dedos deslizam sobre a pele ou os fios de cabelos, é apenas a confirmação do que se havia sentido através dos outros sentidos...

Primeiro tocamos o outro num completo silêncio... em segredo...

Por falar em tocar, resolvi ouvir bem baixinho ‘ Touch me’ na voz do Jim , como uma espécie de invocação , e sussurrava... toque-me...toque-me....toque-me..., e , acredite, aquele homem me tocava de uma forma mais real que qualquer outro..., e a carne tremia ,a pele arrepiava, prenunciando uma manhã fresca, com gosto de morangos..., não mofados, é claro...

Por isso , às vezes, o amor morre, pois deixamos de imaginá-lo ; por incrível que pareça, quando torna-se palpável ,começa a evaporar, pois esquecemos de nutri-lo com o tempero do inusitado que habita o imaginário, abundantemente....Então, o amor passa a fazer parte do cotidiano insuportável, e o bebemos diariamente como se bebe água, por uma questão de sobrevivência, mas não como algo saboroso, como um afrodisíaco que tempera a vida e nos abre o apetite ...Logo ele vai minando até sumir, na poeira dos dias iguais...amorfos...no mofo acumulado nos quartos trancados dentro de nós, sem janelas...

“Não se deve subestimar a força da cura do amor no delírio”, já afirmava Freud , apesar de existirem coisas que nem ele mesmo explicaria, mas esta era uma grande verdade ,que eu , mesmo relutando, acabara comprovando...

Tememos o amor, porque tememos o aniquilamento, mas nós que o aniquilamos com o fuzil da rotineira calmaria...da falsa ilusão de controle...

O amor requer variações de temperatura e pressão, sim , essas condições não pertencem somente ao campo do desejo , e talvez aí esteja outro grande erro, parar de desejar o amor...É preciso sacudir a poeira de vez em quando, pintar as paredes de uma outra cor e partir em viagem, redescobrindo mares....e outras marés...

O amor, como disse o Drummond , ‘é bicho instruído’, dá-nos asas, quebrando as algemas que nos acorrentam ao medo , e , quando isso acontece, a poesia surge em cada detalhe ,em cada vôo e em cada pouso, os versos envolvem os amantes,
ora versos mudos, ora versos sussurrados ao vento que sopra a chama e alastra o fogo...

Eu diria que o amor é um bicho alado... necessita de liberdade...e umas pitadas de insanidade, quando começa a ser racionalizado já não é mais amor..., é o que pensamos sobre ele...

Não , não quero sair desse delírio, quero permanecer nele, pois há mais de mim aqui do que lá fora....Quero decifrá-lo para que eu não seja devorada pelo nada que habita os dias...Quiçá lá dentro dele esteja a chave..., esteja a senha para acessar portais onde estão guardados os códigos que me ajudarão a compreender a realidade...

Amanheceu , sentia que eu acordava sempre um pouco mais iluminada pelo contato solar daquele homem...

Precisava despertar...o cheiro do café ajudava nessa árdua tarefa, com certeza necessitaria de muitos cafezinhos ao longo do dia....Mas esse estado de ‘despertamento’ era diferente de um outro que havia acontecido lá dentro..., quando em silêncio , aquele homem pôs seu sol em mim, e eu ,lua, eclipsei só para poder tocá-lo por segundos...mínimos e inesquecíveis....
Foi um despertar à base de sorvete e licor, era o tipo de despertamento selvagem , que ninguém poderia domar, nem eu nem ele, ainda que , externamente, racionalizássemos a entrega acontecida secreta
mente...

“O que será que me dá ,que me bole por dentro, será que me dá , que brota à flor da pele, será que me dá...?”...

E eu jamais saberia responder ao Chico nem a mim mesma... Você saberia ??...
Só sabia que esses meus avessos eram o que me salvavam ...Eram os meus eus nus...místicos e irreveláveis....Somente quem penetrasse os sonhos poderia me conhecer ...., poderia me tocar de uma forma mais profunda...

Só conhece o amor aquele que não perde a capacidade de sonhar...

‘ ...Por trás do que falam , há o que sentem;
por trás do que sentem, há o que ’ são’ e nem sempre se mostra...’
, já dizia o meu amado Caio....

O que lê-se nos olhos quase sempre não corresponde ao que a boca pronuncia..., por isso evitamos os olhares , para que não delatem o nosso ponto fraco... a nossa total vulnerabilidade... Por isso estamos constantemente a usar máscaras...Já no delírio, estamos de rostos lavados, pois não é preciso que representemos para nós mesmos...

Eis o amor... esse bicho esquisito, que se entrega , sem nem perceber, e nós nos rendemos ao seu doce mistério, ainda que sigilosamente ...

É preciso ter coragem de adentrar o desconhecido....
H(á)mar...além do horizonte que vemos...


É preciso roçar o invisível , como se beijasse a boca do outro, e salivar de tal maneira, que o mar transborde na boca imaginada, lá , do outro lado.., e o segredo seja , assim, dividido, num silêncio convulsivo...


E o eu beijei...e transbordei ... correntezas noturnas do amor...inundando a sala de um outro licor... mais doce...

(Raiblue)