Saturday, May 16, 2009




Metamorfoses do Coração...



Meus olhos desfiavam a noite, catando estrelas nos segundos intermináveis da ausência , líquido céu a me afogar na escuridão.
Morcegos atravessavam o abismo dos meus mórbidos pensamentos , em acrobacias assustadoras , meu castelo em ruínas , onde reinava sozinha , meu exílio.
Fugi do amor , essa serpente que quase me devorou , fazendo-me provar o vinho e o veneno , em sua língua lânguida e sedutora , anunciando o paraíso e , depois , ao umbral me arremessando...
Sentia-me como um inseto , minúsculo e desprezível , não desejava mais nenhuma possibilidade de encontro , estava enredada numa metamorfose kafkaniana , precisava continuar existindo , mesmo me sentindo horrível , um ser estranho a mim mesma ...
Nos olhos arcanjos do amor , penetrei infernos dantescos , falso espelho a distorcer a imagem , a guardar demônios nos labirintos circulares de sua mística pupila dilatada , enclausurando - me
no fundo da íris , porões da alma.
Seu olhar era poético , campo magnético a me envolver em versos molhados de sonhos e pecados , lassos desejos que rasgaram de vez minha sanidade e me atiraram na loucura mais esplêndida e perversa , da qual fui rainha e prisioneira , algemada ao império dos sentidos , numa eterna luta por poder...
Pensando dominar , fui detida , presa às suas grades de ferro , enferrujadas pelo tempo , esse mago senhor repleto de encantamentos , que provocam encontros , mas , também , o pranto , o suicídio de se perder de si mesmo e se entregar às garras desse animal faminto e indomável chamado amor...
Do alto da torre desse meu esconderijo secreto , avistava um oceano nada pacífico , cujas ondas se confundiam com a turbulência dos meus sentimentos ... marés de lágrimas.
Minha mente pintava sombras de Goya , paranóia intensamente carregada, puro expressionismo da minha dor...
Não adiantou fugir ... Meus labirintos kafkanianos não me levaram a lugar algum...
Ah , o coração....Esse músculo involuntário insistia em pulsar , até mesmo num ínfimo inseto ...Descobri que esse orgão pulsante era do mesmo tamanho em qualquer ser...do mais nobre ao mais miserável e peçonhento...Não obedecia à razão , era pássaro selvagem , impossível de ser domado e detido na gaiola da mente , queria mais....Ainda que machucado , estaria sempre em vôo..., nem o céu seria limite, pois se tornara livre...
Após um longo período de reclusão , o coração derramou os pensamentos que o atormentavam , refez suas asas na penugem do tempo e , em
revoada , partiu sem destino.
Em pleno vôo , o inseto se metamorfoseou em Pégasus , atravessando as sombras da noite, redescobrindo o azul do firmamento , fazendo florescer rosas coronárias de um vermelho ainda
mais intenso, nos arteriais caminhos...
Aquele mesmo tempo que desfez o sentimento, agora , na mais absoluta escuridão , acendia constelações incandescentes , clareando tudo , espantando os morcegos , me salvando do beijo (i)mortal do vampiro que rondava minha solidão , em busca de sangue... ,
o sangue jorrado da morte do amor ....
Redenção!! Finalmente compreendi que morrer significava renascer ...na verdade nada se refez...apenas continuou...uma passagem repleta de mistérios...
O corte estancara , apesar da cicatriz , que logo , logo , desapareceria , como a vida que cotidianamente se renova , ficando apenas uma linha tênue de um passado ácido que não me pertencia mais.
Drummond tinha razão, 'amar é mesmo um verbo intransitivo'... '
Estava preparada para o pouso...
De volta à vida , após um coma profundo , eu parecia mais iluminada , talvez por ter mergulhado tão fundo no meu abismo e encontrado a estrela dançante , aquela cintilante que , a partir desse instante , em minhas retinas , estaria sempre a bailar...
Aos poucos, fui retomando o meu ritmo diário , caminhava livre pelas ruas , sem esperar nada , espalhava um aroma de eternidade por onde passava , desconfiava que ela tinha um cheirinho de sândalo...
Olhava o mundo com outros olhos, com certeza , com uma certa estranheza de quem acabara de nascer...Meu corpo havia , de fato, rompido o casulo do medo e renascido, numa outra pele...outra casca..., contudo , meu espírito era o eterno viajante de olhar místico que incorporava personagens a cada ciclo vivido desse espetáculo onírico que estamos sempre a dramatizar...
Seria o amor uma invenção?
‘ Ser ou não ser , eis a questão...’
Reinventei-me!
Minha nova composição , uma trama tão antiga e tão moderna :
Shakespeareana mente... e as tragédias do coração....
E nos palcos da pós-modernidade , o romantismo sempre em cartaz ...


(Raiblue)

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