
ANIMAL ALADO
Algema-me as mãos. Imobiliza meus passos. Prende o meu pássaro em seu labirinto.
Quer me devorar, eu sei, eu sinto, ainda que o sentir seja, agora, apenas uma fresta. Vem serpenteando com seu veneno na ponta da língua, querendo arrancar-me a maçã das retinas. Desmata o meu Éden, seca o verde dos meus olhos e dos rios que me faziam correnteza. Tudo em nome do equilíbrio. Mas meu coração trapezista necessita do perigo de cair na rede. É a adrenalina que me lança aos céus de Santo Amaro. Habito a corda bamba do sentimento, porque o chão não me desafia. Do chão não passo, sem as minhas asas.
E agora, ela faz-me trocar minhas sandálias de couro, de andarilho, por suas botas maquiavélicas, impermeabilizando os caminhos. Endurece meus músculos a fim de quê eles não sintam mais o toque. Estou inseguro em sua segurança. Ela não me convence totalmente com seus argumentos. Travamos, então, a mais intensa batalha. Não há saída, nenhuma janela nem espelho. Sua esgrima é certeira no meu peito: ela quer arrancar o meu coração...
Em gestos hábeis ela encena passos não ensaiados sempre à minha frente. Entendo que não seja, então, uma batalha armada, mas uma dança... um baile onde mãos, olhos e falas ora convergem, ora divergem. O próximo passo é sempre uma dúvida, pra mim. Mas ela estende a mão num convite ao ritmo compassado dos pulsos... e eu seguro sua mão, ainda sem dar um passo.
Aprisiona-se num cinza por trás das cores, e oscila entre o azul e o rubro, dentro de nosso caleidoscópio. Cultivo uma flor em seu canteiro, mas é pouca a luz. Por isso lhe ofereço um canto novo, longe do edifício onde fez morada. Hesita em ceder...
Mudanças sempre abalaram sua estrutura. A pouca luz a mantém firme em seus propósitos, é seu escudo. Uma rosa poderia fragilizar suas convicções, pois o perfume seduz o juízo. Poderia ser um desvio para o seu equilíbrio. Ela me quer dançando em sua penumbra, quer-me entregue às suas mãos fortes, sem indagações. Será mesmo minha companheira ou inimiga? Esta pergunta era arterial, corria pelas veias, era o corpo oscilando diante do seu domínio. Eu não vou, inteiramente. E ela não destranca a porta para o mistério. Quer a clareza dentro do seu escuro. Mas a minha dúvida rodopia entre nossas mãos, e eu não saio do lugar. Estou no alto do seu edifício e não tenho pára-quedas para saltar. Saltar também exigiria uma entrega total: uma vez pulado, não poderia mais retornar.
Seus olhos são firmes, como se nunca tivessem ficado em cima do muro. Ao contrário dos meus, que, tão relativos, adoram mudar o ponto de vista: ora asfalto bruto, ora oceano sem fundo. Ela me contorna, com sua dança, sapateia em minhas dúvidas e me venda com suas certezas. Oferece-me um cálice da verdade dela. Será a mesma minha? O cheiro é tentador, mas ainda não bebo.
A velocidade dos questionamentos cresce inversamente proporcional à velocidade de nossa dança.
Em algum lugar de sua retina, deixava escapar detalhes fragmentados de dois pesos diferentes espalhados pelos contornos de seus olhos. De um lado, quedas d'água. Doutro, uma represa. O chiado de suas águas esconde uma razão que vem da nascente... das águas cristalinas que emanam de sua terra.
Eu sigo cuidadosamente o seu chiado, desbravando o vale de sua penumbra... um passo atrás e um pé de cada vez - como se aprendendo um novo passo de dança. Olhar para todos os lados se faz necessário. Mas, aqui, as árvores parecem se mover, dando a impressão de que nunca se passa duas vezes no mesmo local, e todos os animais salivam à minha presença.
Sou capaz de ouvir seus rugidos, tão intensamente, que se confundem com o grito do meu silêncio. O animal sou eu, preso em sua floresta, jaula cheia de promessas, porém o que ela deseja mesmo é domar o meu pássaro. Ela extinguiu a serpente do seu reino, mas esta atravessa minha medula e me traz a sanidade através do seu veneno, antídoto contra a monotonia do seu império de certezas.
Ela tem os dentes afiados, mas eu ainda tenho minhas asas... Quem devorará quem? Haveria uma possibilidade dela compreender que sou um animal alado? Poderia até dançar com ela, se me deixasse voar...
Enquanto escuto o chiado vindo do fundo de suas águas, ensaio passos de vôos para além de suas mãos...
(RaiBlue & Jéfte Sinistro)
BlueSinistro, em maio de 2009.
Um instante único e inesquecível...
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