Tuesday, May 05, 2009



A(há)mar adentro do silêncio ...



“O que será , que será, que dá dentro da gente e que não devia...? ”

... e a voz do Chico ecoava em mim, como um estrondo, numa noite de sexta-feira, a mais silenciosa de todas , uma preparação para o inverno que vinha chegando de mansinho...

Uma queimadura suave, em alguma parte interna , ardia , naquela madrugada vazia, tornei-me incomunicável, não cortei os pulsos, porém cortei todos os fios que poderiam me fazer escapar dali, desliguei o telefone e o interfone , não queria conexão alguma, abismei-me no meu silêncio, queria chegar ao fundo de mim e descobrir o que era real e inventado, o que era de carne e osso e o que era teatro...Tive um dia duro, representar cansava-me, retirei minha máscara e tentei relaxar.

Preparei uma taça de sorvete de creme com papaya misturado ao licor de Cassis, desliguei a luminária vermelha e me joguei sobre as almofadas coloridas no tapete azul da sala....

Ardia por dentro, enquanto aquela coisa gelada descia pela garganta, provocando vapores devido ao choque térmico....Esfumaçava-me....Estava exatamente assim, perdida entre as variações de temperatura do corpo e da alma...

Engolia o sorvete como se quisesse esfriar aquela escuridão, quase brasa, que sempre se apoderava de mim durante as madrugadas repletas de muitos silêncios secretos...Tentava resistir ao sono,tentava fugir daquele homem magnético e solar que surgia assim, no meio da noite , sempre que eu fechava os olhos, ele era minha aurora boreal....meu sol da meia-noite...Mas minha luta era vã,ele sempre me vencia...No íntimo, talvez, minha solidão tornara-se irresistível, para que eu pudesse permanecer nas minhas leituras e viagens, na escuridão necessária à penetração da luz dos sonhos repletos de volúpia e de uma liberdade impossível de ser tocada no plano real ; no onírico mundo, permitia-me ser outra, diferente daquela que todos conheciam, uma outra inventada, que, talvez, fosse, de fato, eu mesma..., e aquela que atuava na realidade , sim , era a personagem que eu vestia...

Nesse palco, por trás das cortinas que separam o real do imaginário, nasceram poesias , contos , músicas e todos os amores...Sim, amor, porque antes de se tornar físico, ele é imaginado, nasce de um olhar..., de uma voz... , das palavras...,de um perfume... Tudo isso toca a gente , antes mesmo das mãos...; quando os dedos deslizam sobre a pele ou os fios de cabelos, é apenas a confirmação do que se havia sentido através dos outros sentidos...

Primeiro tocamos o outro num completo silêncio... em segredo...

Por falar em tocar, resolvi ouvir bem baixinho ‘ Touch me’ na voz do Jim , como uma espécie de invocação , e sussurrava... toque-me...toque-me....toque-me..., e , acredite, aquele homem me tocava de uma forma mais real que qualquer outro..., e a carne tremia ,a pele arrepiava, prenunciando uma manhã fresca, com gosto de morangos..., não mofados, é claro...

Por isso , às vezes, o amor morre, pois deixamos de imaginá-lo ; por incrível que pareça, quando torna-se palpável ,começa a evaporar, pois esquecemos de nutri-lo com o tempero do inusitado que habita o imaginário, abundantemente....Então, o amor passa a fazer parte do cotidiano insuportável, e o bebemos diariamente como se bebe água, por uma questão de sobrevivência, mas não como algo saboroso, como um afrodisíaco que tempera a vida e nos abre o apetite ...Logo ele vai minando até sumir, na poeira dos dias iguais...amorfos...no mofo acumulado nos quartos trancados dentro de nós, sem janelas...

“Não se deve subestimar a força da cura do amor no delírio”, já afirmava Freud , apesar de existirem coisas que nem ele mesmo explicaria, mas esta era uma grande verdade ,que eu , mesmo relutando, acabara comprovando...

Tememos o amor, porque tememos o aniquilamento, mas nós que o aniquilamos com o fuzil da rotineira calmaria...da falsa ilusão de controle...

O amor requer variações de temperatura e pressão, sim , essas condições não pertencem somente ao campo do desejo , e talvez aí esteja outro grande erro, parar de desejar o amor...É preciso sacudir a poeira de vez em quando, pintar as paredes de uma outra cor e partir em viagem, redescobrindo mares....e outras marés...

O amor, como disse o Drummond , ‘é bicho instruído’, dá-nos asas, quebrando as algemas que nos acorrentam ao medo , e , quando isso acontece, a poesia surge em cada detalhe ,em cada vôo e em cada pouso, os versos envolvem os amantes,
ora versos mudos, ora versos sussurrados ao vento que sopra a chama e alastra o fogo...

Eu diria que o amor é um bicho alado... necessita de liberdade...e umas pitadas de insanidade, quando começa a ser racionalizado já não é mais amor..., é o que pensamos sobre ele...

Não , não quero sair desse delírio, quero permanecer nele, pois há mais de mim aqui do que lá fora....Quero decifrá-lo para que eu não seja devorada pelo nada que habita os dias...Quiçá lá dentro dele esteja a chave..., esteja a senha para acessar portais onde estão guardados os códigos que me ajudarão a compreender a realidade...

Amanheceu , sentia que eu acordava sempre um pouco mais iluminada pelo contato solar daquele homem...

Precisava despertar...o cheiro do café ajudava nessa árdua tarefa, com certeza necessitaria de muitos cafezinhos ao longo do dia....Mas esse estado de ‘despertamento’ era diferente de um outro que havia acontecido lá dentro..., quando em silêncio , aquele homem pôs seu sol em mim, e eu ,lua, eclipsei só para poder tocá-lo por segundos...mínimos e inesquecíveis....
Foi um despertar à base de sorvete e licor, era o tipo de despertamento selvagem , que ninguém poderia domar, nem eu nem ele, ainda que , externamente, racionalizássemos a entrega acontecida secreta
mente...

“O que será que me dá ,que me bole por dentro, será que me dá , que brota à flor da pele, será que me dá...?”...

E eu jamais saberia responder ao Chico nem a mim mesma... Você saberia ??...
Só sabia que esses meus avessos eram o que me salvavam ...Eram os meus eus nus...místicos e irreveláveis....Somente quem penetrasse os sonhos poderia me conhecer ...., poderia me tocar de uma forma mais profunda...

Só conhece o amor aquele que não perde a capacidade de sonhar...

‘ ...Por trás do que falam , há o que sentem;
por trás do que sentem, há o que ’ são’ e nem sempre se mostra...’
, já dizia o meu amado Caio....

O que lê-se nos olhos quase sempre não corresponde ao que a boca pronuncia..., por isso evitamos os olhares , para que não delatem o nosso ponto fraco... a nossa total vulnerabilidade... Por isso estamos constantemente a usar máscaras...Já no delírio, estamos de rostos lavados, pois não é preciso que representemos para nós mesmos...

Eis o amor... esse bicho esquisito, que se entrega , sem nem perceber, e nós nos rendemos ao seu doce mistério, ainda que sigilosamente ...

É preciso ter coragem de adentrar o desconhecido....
H(á)mar...além do horizonte que vemos...


É preciso roçar o invisível , como se beijasse a boca do outro, e salivar de tal maneira, que o mar transborde na boca imaginada, lá , do outro lado.., e o segredo seja , assim, dividido, num silêncio convulsivo...


E o eu beijei...e transbordei ... correntezas noturnas do amor...inundando a sala de um outro licor... mais doce...

(Raiblue)

1 comment:

Jefte said...

Blue... indescritível texto! O amor é mesmo essa coisa louca que nos percorre corpo e alma... É o que nasce, antes, nos sonhos, pois o toque é apenas a extensão física do amor existente (ao menos é o que deve ser)... E 'esse' delírio se faz necessário para manter o amor acordado... para que não se torne só a rotina... É inexplicável o sabor do amor adocicado com esse delírio tão bom... Apluasos e beijos sem fim, Blue!