Saturday, October 03, 2009



  
PORTODOSEMPRE ...

Pernoito dentro dessa saudade, e o chão se abre em neblina azul. Penetro o pálido vago, memórias de um subsolo onde você ainda ,deitado sobre mim, roça minha nuca e pinta em meu ouvido um futuro suspenso num sonho feito de um invisível inquebrável, como deveriam ser todos os sonhos, uma epifania nas veias, e as artérias me levando de volta a uma parte de mim descolada , que ficou em alguma Pasárgada, num vôo sobre esse mundão afora.

É muito tênue esse caminho que me divide entre um restinho de rio e mar... Trago o doce e o sal nas entranhas e um estranho sentimento de não pertencer a lugar nenhum, pois, no final das contas, essa vida nem é mesmo da gente...

Nômade ou extraviada, o destino parece sempre escapar, e os passos, cansados, vacilam em cima do muro das lamentações, talvez porque o sertão que corta as minhas águas, quase em extinção, saiba bem que não se espera muito dessa vida emprestada, quando tudo é seca... Segue-se o seco com o olhar perdido até que o céu chore por nós, e a chuva fecunde uma pontinha de esperança nas terras do coração que navega em qualquer gotinha de oásis...

E é assim, num tempo cada vez mais instável, que tua ausência flutua na saliva da noite, devorando meu sono. Dou-me inteira, como presa dessa fome, como se, ao ser tocada pela boca da noite, todas as distâncias se dissolvessem no meu paladar, com essa fragância que imagino teus lábios cheios de sol...
E um vermelho sopra as cortinas que lançam a jangada azul-cor-de-céu-portodosempre na rubraonda sobre o meu corpo, até o fundo das águas que me despem e fecundam meu sertão de puro encantamento. Navegar é preciso, ainda que em pleno deserto!

E a casalma inunda, as paredes transpiram sussurros que escorrem, pintando algas no teto transparente, e um sol transgressor sorri, com seus reflexos dourados em nossas espumas-lavas-lunares, levando o arco-íris para o sertão de cada um, que se dissolve em corais, no suor de luar, enfeitando nosso noturno mar...

Algo das algas derrama o verde frescor do instante vivido e há uma umidade de chuva sob ele, das chuvas que guardam os beijos dentro de cada gota que vira um oceano dentro da boca...

A saudade sempre me chega como um sax soprando furacões de silêncios de lampiões e sons cintilantes , sempre música no meu paladar, pois sempre gostei de lamber os sons das coisas, como um doce ritual guarani que resgatava o espírito ancestral de tudo que já havia passado por mim e voltava... porque na verdade nunca fora para sempre...

Toco tua voz, que me chega assim de longe, com a língua, sugo toda a polpa que tem o teu sotaque, bebo os sons de sim que vêm no vento de tua respiração, e sinto um tornado derrubando todos os nãos que roubam nossos sonhos, traiçoeiramente, como feitiço, coisa- feita pra não deixar a gente ser feliz, ainda que a felicidade seja clandestina mesmo...

O mistério está em esquecer um tantinho dessa modernidade pantanosa e ir buscando devagarzinho o que não está nas idéias, perder o juízo encurta qualquer distância!

É preciso enxergar aquilo que está no sem fundo dos olhos e da vida, inesgotáveis fontes de mistério, lugarzinho navegável até a barquinhos de papel. Basta não ter pressa, acender a luz de um lampião na varanda dos sentimentos e escutar os vaga- lumes trazendo alguma mensagem secreta das estrelas...

Abandonar a lógica e sentir o aroma..., e o paladar experimentará de novo a vida... afluente de magma trazendo de volta o calor humano ao homem-de-lata que nos tornamos...

Temos que sair das jaulas que não nos protegem e plantar
uma flor no asfalto, há de brotar um Éden não artificial...
este que sempre brota dessa saudade estampada
com flores-fluviais-feitas-de–correntezazul...

“Shimbalaiê quando vejo o sol beijando o mar... Shimbalaiê toda vez que ele vai pousar...” ... e meus olhos re_pousam em ti...
pássaro livre vivendo anos nos segundos de um bater de asas...ancorando meu vôo em teu portodosempre...e teus olhos crescem feito duas luas se pondo em mim...

Basta um piscar pra eu te amar...e tudo se pôr em seu lugar...
Basta o movimento dos barcos e o encontro se dará...breve e infinito como a vida...

(Raiblue)

Madrugada de 24 de setembro de 2009./ Pensando em meu solzinho...

Saturday, July 11, 2009



O DRONE DOS CÔMODOS DA ALMA


Não diga, “eu encontrei a verdade”, mas antes, “eu encontrei uma verdade”. Não diga “eu encontrei o caminho da alma”. Antes diga, “eu encontrei a alma caminhando o meu caminho”. Para a alma caminhar em todos os caminhos. A alma não caminha em uma linha, nem cresce como um junco. A alma não abre-se, como uma lótus de inúmeras pétalas.

(Khalil Gibran, O Profeta, 1923)



Eu quero os contornos da noite, quando as sombras são silhuetas de coisas que existem, mas não se definem, porque defini-las seria reduzi-las a uma imagem. Seria como querer definir Deus. Ele não é um conceito nem cabe num retrato. É a idéia sobre a coisa que a faz existir, e uma idéia está sempre singrando. Logo, existir ou não existir? Eis a equação cuja solução não pertence ao conjunto real...

A noite é ampla, não cabe numa moldura. É fechadura por onde se espia as possibilidades, mas nunca se abre as portas totalmente, a fim de ampliar os caminhos. As verdades habitam as penumbras. A sombra é sempre um desafio, um labirinto que nos salva da realidade estática. Não, não quero a definição que estagna o meu pensar. A idéia é livre. Entender seria trancar-me numa casa e esquecer dos entornos.
Os contornos, que definem o espaço, também são muralhas que impedem de ver o horizonte se derramar no mar ou o mar engoli-lo, depende de quem olha. Só podemos escolher as paisagens, quando não possuimos grades no olhar: Open Your Mind e a sua alma lhe alcançará!

Entender aprisiona, enquanto a dúvida é um exercício de liberdade. Viver é vasto, é sempre uma idéia em movimento; eu sou múltiplo, o tudo sempre está no verso das coisas, sempre no avesso indecifrável. Prefiro a desordem das palavras dissolvida na minha, entrecortando a escuridão, amplificando o silêncio grávido de coisas por dizer, que se misturam ao barulho do refrigerador e ao tic-tac do relógio inútil, visto que o tempo, em mim, acelera e desacelera involuntariamente.

Nunca me encontro onde estou. Sou assimétrico e sem métrica, poesia instintiva que devora o cotidiano. Tenho um olho diferente do outro, e vejo tudo ao mesmo tempo. Um olho grita e goza, explicitamente, no implícito do que vê; o outro, silencia e pondera, implicitamente, no explícito invisível.

Não quero no pulso a inutilidade do tempo que gira ao redor de si próprio à sombra de um tic-tac frenético. Inúteis, volto a dizer, inúteis. Nunca concebi um tempo que vivesse em função de si, escorrendo num pulso que não o do meu coração. Nunca concebi um tempo que não o eterno, infindo, um tempo onde caiba o meu silêncio.

Meus lábios guardam a brasa viva que purifica os dados de minhas palavras, que nunca sei se jogadas à sorte ou se ensaiadas em algum outro tabuleiro da memória, ainda que eu prefira o verso infindo do silêncio - esse drum cadenciado de minha canção noturna - que em uma retina dorme, e em outra grita.

A noite em néon cai sobre minha cabeça alucinada pelas ondas sonoras desse diálogo impossível entre os meus olhos. Quanto mais vejo, mais tenho certeza da dúvida.Quanto mais busco auto-conhecimento, mais me estrangeirizo, porque pensar é transgredir qualquer limite, é um eterno estranhamento.
Rasguei as ideologias iluministas para acreditar em minhas verdades relativas escavadas nas sombras, pois não queria apenas reproduzir o que os outros viam.
Sinto-me saudavelmente divergente, servo e senhor de mim, com o destino fazendo piruetas!

Como encontrar unidade na pluralidade dos caminhos? Como ser um, se em cada olho habita um outro tão contrário? Como me perder nas bifurcações da noite, se a verossimilhança me une a ela? Como um morcego, sobrevôo cegamente o paraíso da dúvida, esse escuro aceso que não me deixa ser alienado a uma única prepotente verdade. Bebo cálices de incertezas, brindando a liberdade do pensamento e repudiando as ideologias mortas que tentam impedir a revolução.

A minha arma é a minha asa, alma a caminho de casa,no infinito azul...

O drum do silêncio continua a ecoar, e as dúvidas a dar uma volta completa dentro das retinas; partem e retornam ao mesmo ponto, mas nunca da mesma forma, já são outras, inesgotáveis, soprando o balão dos sonhos no céu das divagações...

No globo ocular, psicodélicas viagens à procura de Deus, a única indefinível certeza, que a tudo define, e é, em sua existência, o mais profundo dos mistérios e, por vezes, parte do meio da dúvida.

Sempre preferi as perguntas às respostas, afinal são as perguntas que nos impulsionam a um novo salto, na maioria das vezes, experimentado à luz do escuro. As dúvidas são como a noite: um fenômeno diáfano. Mas, a certa altura, os impulsos não são mais que giros ao redor de mim. Mais da metade das dúvidas humanas é assim, de saltos seguidos, traçando um ângulo de 360°. Mas que bom que há gente que não se guia só pelos olhos, mas pela força dos demais sentidos, e exercita bem os saltos no coração da penumbra. Esforço-me para ser um destes, daí minhas olheiras, resultado de mergulhos no inexplicável, porém profundamente sentido.

O diálogo de meus olhos, em certas horas, é quase vesgo e, então, não sei se prefiro suas controvérsias ou o discurso movente da mudez de meus lábios. As palavras sempre me antecedem, mas o estrondo do inaudível está ainda um passo à frente e ressoa nos cômodos de minha alma, como um drone. O silêncio é um tornado surgido do bater de asas de uma mariposa, que se esforça sob o túmulo estrelado.

E é nesse lugar, onde a metamorfose busca o impossível, que o pó daquilo que foi passa a ser o início de um novo mistério, pois quem poderá afirmar como terminará o infinito?

Cai uma estrela da minha lápide azul em meus olhos vesgos, fechando-os como se fosse as mãos de Deus, e, finalmente, enxergo o universo nu, do subsolo de minha secreta alma.

E a borboleta continua a desvendar janelas no fundo rio que atravessa o eterno...


(RaiBlue&Jéfte Sinistro)


Em 07 de julho de 2009

Que nossas línguas continuem sempre bluesinistrando, meu amor...obrigada!

Friday, June 19, 2009




SILÊNCIO DE CARNE E OSSO


“Perfeição demais me agita os instintos...”
(Zélia Duncan)



O inverno se aproximando e quarenta graus no coração. Tempestades no deserto da aorta, entupida pela ferrugem do tempo.Casaco de flocos de neve, para congelar o impulso, coagular o vulcão subcutâneo.Terremotos de sentimentos, abalos sísmicos nos icebergs espalhados entre os pelos.

Aquele que habita o mais profundo de mim não é o que os outros vêem. Daí a contração muscular, a tensão dos fios que tentam conectar’ eus’ tão distintos. Me perdi entre um e outro. Caramujo de mim,vou me enrolando como se quisesse estrangular a vida, no fundo das areias pantanosas. Sou um labirinto de máscaras. Em qual delas baterá o meu coração?

Estou no meio da zona do indefinível. Seguro no trapézio, mas não consigo saltar, porque não sei para que lado quero ir, pois sei que escolhas implicam em renúncias. Não sei qual ‘eu’ me trará alivio nem aquele que não quero mais ser. Há um equilíbrio nesse caos de minha cosmologia, uma rebeldia para disfarçar o medo daquele que nem conheço, mas que já está aqui, latente, como uma sombra que ninguém vê, mas que se projeta sob os meus passos.

Sou mais o que penso ou o que escapa das grades do pensamento? Os gestos planejados ou os impulsos acrobáticos atravessando as artérias em saltos bárbaros?

Penso que o meu ‘ser pensante’ às vezes não me deixa ‘ser’, de tanto que me julga, modela, padroniza e questiona meus instintos, como senhor absoluto. Enlata-me para ser devorado, sem efeitos colaterais, para aumentar meu prazo de validade.
Mas tem algo em mim que quer inflamar e não apenas durar.

Pensar, às vezes, me deixa exausta, como se eu estivesse nadando contra minhas próprias correntezas. Pensar, às vezes, é cortante, aborta os sonhos, faz sangrar a alma.

Num silêncio de carne e osso, meu coração granada implode, mas ninguém ouve. Os tímpanos das cidades desalmadas estouraram. As máquinas substituíram o humano, a voz agora é uma gravação programada. Os ouvidos foram arrancados. Quase não há diálogo entre os olhos, senão quando a palavra digitada armazena a alma. Existem e-mails que beijam a pele e acalmam ou ardem!

O tumulto é de pedra rolando goela adentro. A pedra agora está dentro de nós, sem nenhum caminho. Há várias pedras, uma muralha cercando o coração. Proteção ou prisão? Quanto valerá, afinal, um pensamento, sem pitadas coronárias vermelhas? Ao pensar isto, senti, imediatamente, um cáustico enjôo.

No meio da náusea, brota uma flor que insiste em perfumar o hálito, como quem aguarda um beijo, quando o trem atravessar a cidade de aço e alcançar a estação de calor.

Contudo, por enquanto, hibernada nesse silêncio corrosivo, a esfinge da fé tenta decifrar meus enigmas. A febre não passa. A dúvida galopa em meus campos, que pensei ser tão maduros, indomável fera a rondar meus poros, como quem fareja uma saída.

As portas do inverno abertas, o mar congelado, o mergulho adiado para um verão que nem sei se verei. Convulsão, choque térmico. Os círculos fechados dentro dos olhos abertos, e uma dantesca fome que nada sacia. A vida vazia, eu vazante, vazada, e a tinta vermelha escorrendo.

A veia aberta tentando expulsar coágulos de pensamentos que impedem o trânsito da emoção. Pressão ocular elevada, quase levando à cegueira. Ensaios? Desespero.

Preciso ver para crer ou crer para ver?

De novo, ninguém me responde. Sou mais um enlatado, na prateleira dessa sociedade de consumo, que já perdeu o paladar para as coisas naturais, há muito tempo.

Macrobiótica esperança mastigada até o ultimo grão.

A inteligência artificial e a geração digital comandando o destino, como deuses da astronave Terra. Todos nós astronautas de um universo cada vez mais perdido nos cyberespaços, e a odisséia dentro de nós.

A identidade se desintegrando nas clonagens, nas montagens digitalizadas.' Admirável chip novo! 'Fios substituindo veias. O ponto de mutação perdido na nova era, sem nenhum Zaratustra nem Gentileza.

E os livros nas estantes, as histórias amarelando, os heróis esquecidos em suas epopéias. O amor, pura representação. Sentimentos pensados e não vividos. Uma ficção real.

Tudo agora imediato: o contato e a desilusão; a felicidade e a dor.
Tudo breve, só não a neve que encobre as cidades, congelando o coração. Porém, ainda ouço uma melodia que me faz respirar na brecha de um sopro de sax, um pressentimento guardado em segredo na caixa de Pandora, no fundo do meu secreto abismo.

Alguma coisa ainda vibra sobre o gelo e entre os meus pelos...
Uma música derrete até mesmo o aço...pode reinstalar o sistema...quiçá...

Afinal, somos feitos de silêncios e sons...

(Raiblue)



Em 13 de junho de 2009

Friday, June 12, 2009





CAMALEÔNICO CASULO



"Quem iria conhecer essa imensa beleza
Quem iria conhecer um transe santo
Quem iria conhecer essa respiração milagrosa
Para inalar um confronto carregado de coragem"
(Bjork - Cocoon)


Bebi a chuva que invadia repentinamente o meu deserto, a fim de que o comprimido do tédio descesse mais rápido goela adentro. Contudo, acabei levando toda tempestade junto, e, agora, a enchente desorganizava toda lógica dos meus compartimentos, aparentemente acomodados dentro do previsível.

Os desertos são assim: longos períodos de calmaria e, de repente, as tempestades de areias lançadas pelos fortes ventos.

Como um camaleão, na falta de vegetação, pois o verde há muito tempo desapareceu de minhas terras e a esperança já não voava mais por aqui, tentei me esconder sob as dunas de pensamentos.Engolir o tédio era torturante, mas para livrar-me dele seria preciso descascar camada por camada das idéias que sustentavam o meu falso equilíbrio.

Sob os olhos vermelhos e escaldantes do sol que castigava o solo de meu pensar calejado, brotava a indagação, quase como uma miragem, das areias de meus ‘eus’ : o que amargava mais, os comprimidos de tédio ou o descascar dessas camadas quase sedimentadas em meu ponto de aparente equilíbrio?

Pertinente, porém tempestuoso demais para o instante.

A essa altura o vento se impunha com mais força, desconstruindo e reconstruindo as dunas dos pensamentos onde eu estava. Parecia trazer, também, um cântico familiar entre a poeira que carregava como um fardo - não para ele, mas para mim e os demais andarilhos desse pedaço de chão.

Fui seduzido por aquele cântico, numa espécie de hipnose. Tentava resistir, temendo o que encontraria sob aquela névoa, que mais parecia uma cortina do tempo que se desfazia e me lançava num vácuo. Era como se eu fosse adentrar um palco, esperando ver um espetáculo inusitado e, de repente, desse de cara comigo mesmo, como protagonista. As paredes eram espelhos, e eu repartido em vários. Foi quando percebi que os andarilhos eram ‘eus’ que se procuravam.

Seria uma revelação?

O tempo parecia furioso, me sugava como um moinho para dentro de um espaço desconhecido. Ao pisá-lo, foi tão estranho! O chão era inconsistente como um mangue. Talvez fosse a poeira misturada às minhas águas represadas.
A sensação era exatamente esta. Sabe aquela arte de colocar a farinha no caldo para fazer o pirão?Pois era assim que estava me sentindo, remexido, pisando em algo que não era nem duro nem mole, um terreno indefinível em sua textura.

Seria movediço?

Do tédio do rígido previsível, fui ao pavor daquilo que me tirava o chão, que me deixava solto no ar, sem gravidade, ou melhor, era algo gravíssimo, e me fugia ao controle. Porém curioso, era assustador e leve, ao mesmo tempo.

Agitado, comecei a sentir um cheiro esquisito, coisa que há muito não sentia. Pensei que a aridez do deserto houvesse me roubado o olfato para os detalhes dos entornos.
Mas, milagrosamente, o apurou ainda mais. O aroma penetrava meu casco de camaleão, que começava a se transfigurar, numa espécie de metamorfose. Todavia, invés de sair do casulo, a sensação era de estar entrando nele, de volta.

Era como se o tempo – que ali cheirava a menta e canela – me tomasse pelos braços e me levasse a uma prisão. Não uma prisão qualquer, mas uma caixa mágica. Um casulo onde o aroma costurava novas asas em mim. Sentia como se tivesse nascido velho e, ali, estivesse rejuvenescendo... Não sabia ao certo o que sentir.

Dentro do casulo tudo era penumbra. Eu tateava as paredes tentando enxergar os contornos do lugar. Havia algo diferente, ali. Era como se, a cada passagem de minhas mãos sobre as paredes internas do casulo, fossem bordadas palavras mágicas que se renovavam a cada toque. Eram palavras celestes, ora cinzas, ora azuis.

E, nessa oscilação, elas se soltavam e boiavam num líquido viscoso, até grudarem no meu casco, já amolecido e não mais enrugado. Iam despindo, uma a uma, minhas couraças.
À medida que trocava de pele, sentia nascer um outro ser.
O amniótico líquido apagava digitais, que nela estavam impregnadas, e preparava virgens camadas para novas viagens. A tinta escorria levando todo entulho da minha antiga casa.

Então, eu, que chovia por dentro, começara a sentir uma delicada forma de calor...

Sentia a menta de alguns beijos deliciosamente roubados e aquele aroma de uma infância emprestada, não vivida, mas que cheirava à canela do mingau da casa vizinha, nas tardes em que eu, já camaleãozinho, me escondia entre as folhas e inventava vidas coloridas, para sobreviver à cinza selva urbana.

O que eu imaginava era mais real do que o asfalto bruto. Era a minha morfina, era a alma escapando do tédio daquele corpo rígido e insensível. A minha mente, um ciberespaço, onde eu navegava um mundo só meu. Minha tribo era eu.

Catava sonhos nos ventos, que viravam cata-ventos de palavras, que se tornavam o grande sol do meu deserto. E o amarelo ascendia entre as folhas! Eu tinha todas as paisagens por dentro, onde a poesia desabava...

Fora naquele escuro líquido que tudo ficara claro, e eu conseguira renascer...

Ou seria apenas mais uma reinvenção? Deixo, com as palavras, a palavra final...




(Raiblue & Jéfte Sinistro)

Em 28 de maio de 2009


Ao meu môrEco...pela cumplicidade...

Tuesday, June 02, 2009

PRELÚDIO DE INVERNO






São 18 horas de uma terça-feira comum. Chego do trabalho e, depois de alguns dias asfixiada por aplicação de provas e correções, ao abrir a porta de casa, vou jogando, sobre a mesa, minha bolsa, pastas, livros, cadernos. Vou deixando, pelo caminho até o meu quarto, meu All Star azul, que me dá sensação de estar sempre pisando nas nuvens, já que é da cor do céu e traz estrelas no nome...

Tiro a camiseta preta , que contém uma frase do meu quase favorito poeta, dizendo que “Tudo vale a pena,se a alma não é pequena...”, e, à medida que vou me desfazendo do peso da matéria sobre o meu corpo, vou sentindo mesmo minha alma alargando e a sensação de que meu poeta pode estar certo.

O cotidiano é, muitas vezes, cruel demais! Ditador, vai conduzindo autoritariamente
a vida.Quando percebemos, o tempo passou, perdemos muitos trens ( no sentido denotativo e conotativo da palavra) e grandes viagens, porque não soubemos navegar no impreciso, porque não sopramos a vela nós mesmos,deixamos a responsabilidade toda com os ventos.E ‘Ele’ já havia dito:-Faça sua parte que eu te ajudarei-Portando, nem todos os ventos são confiáveis.

Ventos são traiçoeiros,quando não sabemos, de fato, a direção que queremos seguir.

Tirar instantes como este, para nos desnudar de tudo, para entrar em contato íntimo conosco, é fundamental para perceber o que circula em nossas veias, além da pressão das preocupações diárias. Liguei o som, escolhi, de olhos fechados, o CD que eu colocaria para me acompanhar durante o banho. Apaguei a luz, apertei o play, e fui para o chuveiro. Enquanto a água escorria sobre minha pele, sobre o ruivo dos meus cabelos, rubro dos seus fios parecia se dissolver ...o turqueza da tarde dava lugar ao escarlate da noite em mim...

E, então, a voz da Adriana surgia mansamente e parecia falar por mim,
parecia falar em mim, dizendo:

“Tarde turquesa, quarenta graus
Talvez porque você não esteja, tudo lateja
Tarde sem nuvens, cinqüenta graus
Talvez por sua ausência, tudo derreta...
Noite sem ninguém, nada se mexe
Meu sonho, nosso amor é sério
E você em outro hemisfério

Enquanto tudo derrete, enquanto tudo derrete,
Enquanto tudo parece... derreter”

E enquanto a canção ecoava lá dentro, coloquei o chuveiro na temperatura máxima
para elevar ainda mais a minha...queria sentir a convulsão até a última gota...queria o calor derretendo a ausência, trazendo para perto o longe ...

Talvez não quisesse enxergar que o longe é que estava cada vez mais perto...
Cada vez mais próxima a distância e sua geleiras...

A noite chegou, e foi inevitável o frio...

(Raiblue)



Quando uma saudade bate à porta...

Friday, May 29, 2009






ANIMAL ALADO



Algema-me as mãos. Imobiliza meus passos. Prende o meu pássaro em seu labirinto.

Quer me devorar, eu sei, eu sinto, ainda que o sentir seja, agora, apenas uma fresta. Vem serpenteando com seu veneno na ponta da língua, querendo arrancar-me a maçã das retinas. Desmata o meu Éden, seca o verde dos meus olhos e dos rios que me faziam correnteza. Tudo em nome do equilíbrio. Mas meu coração trapezista necessita do perigo de cair na rede. É a adrenalina que me lança aos céus de Santo Amaro. Habito a corda bamba do sentimento, porque o chão não me desafia. Do chão não passo, sem as minhas asas.

E agora, ela faz-me trocar minhas sandálias de couro, de andarilho, por suas botas maquiavélicas, impermeabilizando os caminhos. Endurece meus músculos a fim de quê eles não sintam mais o toque. Estou inseguro em sua segurança. Ela não me convence totalmente com seus argumentos. Travamos, então, a mais intensa batalha. Não há saída, nenhuma janela nem espelho. Sua esgrima é certeira no meu peito: ela quer arrancar o meu coração...

Em gestos hábeis ela encena passos não ensaiados sempre à minha frente. Entendo que não seja, então, uma batalha armada, mas uma dança... um baile onde mãos, olhos e falas ora convergem, ora divergem. O próximo passo é sempre uma dúvida, pra mim. Mas ela estende a mão num convite ao ritmo compassado dos pulsos... e eu seguro sua mão, ainda sem dar um passo.

Aprisiona-se num cinza por trás das cores, e oscila entre o azul e o rubro, dentro de nosso caleidoscópio. Cultivo uma flor em seu canteiro, mas é pouca a luz. Por isso lhe ofereço um canto novo, longe do edifício onde fez morada. Hesita em ceder...

Mudanças sempre abalaram sua estrutura. A pouca luz a mantém firme em seus propósitos, é seu escudo. Uma rosa poderia fragilizar suas convicções, pois o perfume seduz o juízo. Poderia ser um desvio para o seu equilíbrio. Ela me quer dançando em sua penumbra, quer-me entregue às suas mãos fortes, sem indagações. Será mesmo minha companheira ou inimiga? Esta pergunta era arterial, corria pelas veias, era o corpo oscilando diante do seu domínio. Eu não vou, inteiramente. E ela não destranca a porta para o mistério. Quer a clareza dentro do seu escuro. Mas a minha dúvida rodopia entre nossas mãos, e eu não saio do lugar. Estou no alto do seu edifício e não tenho pára-quedas para saltar. Saltar também exigiria uma entrega total: uma vez pulado, não poderia mais retornar.

Seus olhos são firmes, como se nunca tivessem ficado em cima do muro. Ao contrário dos meus, que, tão relativos, adoram mudar o ponto de vista: ora asfalto bruto, ora oceano sem fundo. Ela me contorna, com sua dança, sapateia em minhas dúvidas e me venda com suas certezas. Oferece-me um cálice da verdade dela. Será a mesma minha? O cheiro é tentador, mas ainda não bebo.

A velocidade dos questionamentos cresce inversamente proporcional à velocidade de nossa dança.

Em algum lugar de sua retina, deixava escapar detalhes fragmentados de dois pesos diferentes espalhados pelos contornos de seus olhos. De um lado, quedas d'água. Doutro, uma represa. O chiado de suas águas esconde uma razão que vem da nascente... das águas cristalinas que emanam de sua terra.

Eu sigo cuidadosamente o seu chiado, desbravando o vale de sua penumbra... um passo atrás e um pé de cada vez - como se aprendendo um novo passo de dança. Olhar para todos os lados se faz necessário. Mas, aqui, as árvores parecem se mover, dando a impressão de que nunca se passa duas vezes no mesmo local, e todos os animais salivam à minha presença.

Sou capaz de ouvir seus rugidos, tão intensamente, que se confundem com o grito do meu silêncio. O animal sou eu, preso em sua floresta, jaula cheia de promessas, porém o que ela deseja mesmo é domar o meu pássaro. Ela extinguiu a serpente do seu reino, mas esta atravessa minha medula e me traz a sanidade através do seu veneno, antídoto contra a monotonia do seu império de certezas.

Ela tem os dentes afiados, mas eu ainda tenho minhas asas... Quem devorará quem? Haveria uma possibilidade dela compreender que sou um animal alado? Poderia até dançar com ela, se me deixasse voar...

Enquanto escuto o chiado vindo do fundo de suas águas, ensaio passos de vôos para além de suas mãos...

(RaiBlue & Jéfte Sinistro)

BlueSinistro, em maio de 2009.


Um instante único e inesquecível...

Saturday, May 23, 2009

UM(IDADES)...





Hoje, acordei num entusiasmo!! Ah,esta palavra é tão saborosa, que só de pronunciá-la já se altera alguma coisa em mim, dá água na boca! Significa, em grego, ‘ter um Deus dentro’. Hoje eu sabia que ele estava aqui, comigo, em cada detalhe que assobiava o dia...


Amanheceu chovendo muito, mas, surpreendentemente, o sol ardia silencioso, em minha pele. Eram, ainda, vestígios de sonho cintilando nas minhas idéias...


Estava pronta para atravessar qualquer tempestade, ao menos por hoje. Amanhã, talvez voltasse a nublar, sei bem das minhas bipolaridades: de repente, o tempo fecha ou abre, em questão de segundos, onde algo dispara algum alarme dentro de mim.


A nau do destino, nesta amanhã, naufragaria, pois, neste exato momento, não era o mar que me continha, era eu quem o trazia por dentro.Eu o levaria para onde quisesse, o mar era (m)eu!


Essa sensação me encheu de coragem de arrumar minha desordem, ao menos parte dela, tocando em algumas coisas frágeis guardadas no fundo do armário, no bolso de um casaco ou num baú de argila pintado de estrelas do mar. Havia um oceano ali dentro, onde, há um tempo atrás, eu me afogaria, mas hoje não havia o menor risco.


Aproveitei a chuva para lavar a casa, levar as coisas que não faziam mais sentido.Deixei a água escorrer por fora e por dentro.Depois, deixaría-me quarar a céu aberto. É bom manter uma certa umidade relativa nas coisas, principalmente em mim ...


Por isso, não joguei na chuva a rosa que estava dentro de um livro, o mais especial, pois a chuva não mais a faria brotar. Ao menos , ali, ela retinha a umidade do instante vivido, ainda que numa aparente secura...


Há certas umidades que são secretas, nem precisamos tocá-las com os dedos, basta a mente estar acesa..., e ela mina , numa espécie de telepatia...


As rosas sempre exalam perfume em dias de chuva...principalmente aquelas secretas...púrpuras...


Deixo a chuva se misturar ao meu sol....nasce um arco-íris no meio de mim, quando a minha rosa púrpura orvalha...


Depois, coloco as lembranças para quarar no varal do tempo...Porém, hoje, eu quero toda umidade aqui dentro,...como um Deus a regar meus desertos...


'O futuro foi agora'...por mera distração...



(Raiblue)

' A felicidade brota em horinhas de descuido...'

Saturday, May 16, 2009




Metamorfoses do Coração...



Meus olhos desfiavam a noite, catando estrelas nos segundos intermináveis da ausência , líquido céu a me afogar na escuridão.
Morcegos atravessavam o abismo dos meus mórbidos pensamentos , em acrobacias assustadoras , meu castelo em ruínas , onde reinava sozinha , meu exílio.
Fugi do amor , essa serpente que quase me devorou , fazendo-me provar o vinho e o veneno , em sua língua lânguida e sedutora , anunciando o paraíso e , depois , ao umbral me arremessando...
Sentia-me como um inseto , minúsculo e desprezível , não desejava mais nenhuma possibilidade de encontro , estava enredada numa metamorfose kafkaniana , precisava continuar existindo , mesmo me sentindo horrível , um ser estranho a mim mesma ...
Nos olhos arcanjos do amor , penetrei infernos dantescos , falso espelho a distorcer a imagem , a guardar demônios nos labirintos circulares de sua mística pupila dilatada , enclausurando - me
no fundo da íris , porões da alma.
Seu olhar era poético , campo magnético a me envolver em versos molhados de sonhos e pecados , lassos desejos que rasgaram de vez minha sanidade e me atiraram na loucura mais esplêndida e perversa , da qual fui rainha e prisioneira , algemada ao império dos sentidos , numa eterna luta por poder...
Pensando dominar , fui detida , presa às suas grades de ferro , enferrujadas pelo tempo , esse mago senhor repleto de encantamentos , que provocam encontros , mas , também , o pranto , o suicídio de se perder de si mesmo e se entregar às garras desse animal faminto e indomável chamado amor...
Do alto da torre desse meu esconderijo secreto , avistava um oceano nada pacífico , cujas ondas se confundiam com a turbulência dos meus sentimentos ... marés de lágrimas.
Minha mente pintava sombras de Goya , paranóia intensamente carregada, puro expressionismo da minha dor...
Não adiantou fugir ... Meus labirintos kafkanianos não me levaram a lugar algum...
Ah , o coração....Esse músculo involuntário insistia em pulsar , até mesmo num ínfimo inseto ...Descobri que esse orgão pulsante era do mesmo tamanho em qualquer ser...do mais nobre ao mais miserável e peçonhento...Não obedecia à razão , era pássaro selvagem , impossível de ser domado e detido na gaiola da mente , queria mais....Ainda que machucado , estaria sempre em vôo..., nem o céu seria limite, pois se tornara livre...
Após um longo período de reclusão , o coração derramou os pensamentos que o atormentavam , refez suas asas na penugem do tempo e , em
revoada , partiu sem destino.
Em pleno vôo , o inseto se metamorfoseou em Pégasus , atravessando as sombras da noite, redescobrindo o azul do firmamento , fazendo florescer rosas coronárias de um vermelho ainda
mais intenso, nos arteriais caminhos...
Aquele mesmo tempo que desfez o sentimento, agora , na mais absoluta escuridão , acendia constelações incandescentes , clareando tudo , espantando os morcegos , me salvando do beijo (i)mortal do vampiro que rondava minha solidão , em busca de sangue... ,
o sangue jorrado da morte do amor ....
Redenção!! Finalmente compreendi que morrer significava renascer ...na verdade nada se refez...apenas continuou...uma passagem repleta de mistérios...
O corte estancara , apesar da cicatriz , que logo , logo , desapareceria , como a vida que cotidianamente se renova , ficando apenas uma linha tênue de um passado ácido que não me pertencia mais.
Drummond tinha razão, 'amar é mesmo um verbo intransitivo'... '
Estava preparada para o pouso...
De volta à vida , após um coma profundo , eu parecia mais iluminada , talvez por ter mergulhado tão fundo no meu abismo e encontrado a estrela dançante , aquela cintilante que , a partir desse instante , em minhas retinas , estaria sempre a bailar...
Aos poucos, fui retomando o meu ritmo diário , caminhava livre pelas ruas , sem esperar nada , espalhava um aroma de eternidade por onde passava , desconfiava que ela tinha um cheirinho de sândalo...
Olhava o mundo com outros olhos, com certeza , com uma certa estranheza de quem acabara de nascer...Meu corpo havia , de fato, rompido o casulo do medo e renascido, numa outra pele...outra casca..., contudo , meu espírito era o eterno viajante de olhar místico que incorporava personagens a cada ciclo vivido desse espetáculo onírico que estamos sempre a dramatizar...
Seria o amor uma invenção?
‘ Ser ou não ser , eis a questão...’
Reinventei-me!
Minha nova composição , uma trama tão antiga e tão moderna :
Shakespeareana mente... e as tragédias do coração....
E nos palcos da pós-modernidade , o romantismo sempre em cartaz ...


(Raiblue)

Monday, May 11, 2009

CÁLICE DE VIDA TINTA!!!



Não se tratava de uma relação a mais. Não. Nós nunca nos vimos, mas nos conhecíamos, ou melhor, nos sentíamos. Sentir é a melhor forma de conhecer.

Quando começou ou quando terminará é um mero detalhe. O que importa mesmo é a viagem. As paisagens que vamos pintando pelas avenidas do imprevisível.Do indefinível. Indefinir nos dava total liberdade de ser. E éramos. Éramos o que queríamos ser.

Ele é a rua que me leva de volta a mim, aos meus mais secretos desejos.
É o meu país das maravilhas , e eu, sua Alice, que enxerga tudo grande, imenso! Aquela que acessa os portais para as terras do prazer!

Ele é o meu cúmplice. Nosso delito é apenas ser feliz, essa insustentável leveza. Desde quando nossas línguas se reconheceram, que ele mora em minhas retinas. Sim, nós entramos no outro através das palavras sussurradas nos olhos..

A melhor parte do meu dia é quando volto para casa. Durante o caminho, protejo meus olhos para que nenhum vento o arranque de mim. Fecho os olhos, para guardá-lo dentro, secreto e só meu.

Chegando em casa, escolho a música que nos embalará nessa noite sempre nova, porque sempre ele vem diferente.Tem uma música que já se tornou nossa.Eu sei que ela o trará até mim. É quase uma invocação. E, assim, começa o ritual de passagem a um outro plano.Vou largando a roupa pelo caminho, peça por peça. Nua, sob o chuveiro, a água e a música preparam o corpo e a alma para ele.Pêssego na pele, hidratando as curvas , para que ele deslize melhor e se embriague da fruta que mais gosta, escorrendo entre os meus pelos. É um ímã, uma armadilha.

O pensamento abre a fechadura da pele, como quem sabe exatamente o ponto de desequilíbrio.

E ele vem, quando me deito no edredon azul, nosso mar, e Tálassa e Urano celebram nossa união no horizonte inventado dentro de nós. É mar e céu fundidos no fundo de nossas águas. E então começa a aventura pelo reino dos sentidos. Sua língua contorna lentamente meus lábios, lubrifica as idéias....e eu vou abrindo minha boca devagar e sugando sua língua, roçando-a como uma serpente. E então são duas línguas entrelaçadas provocando ondas turbulentas entre as pernas, correntezas atravessando toda a delicadeza das sensações...até nos tornarmos selvagens,
docemente selvagens...

Mordo em sua boca a maçã...e descubro um Éden. Em nosso reino não há pecado, é proibido proibir. Tropicálias madrugadas!!!

Com ele toda noite é dionisíaca, com Baco a nos servir cálices de vida tinta!!!

Embriagamo-nos, enquanto a vida é extinta lá fora...

(Raiblue)



Àquele que torna meus sonhos mais tintos...

Tuesday, May 05, 2009



A(há)mar adentro do silêncio ...



“O que será , que será, que dá dentro da gente e que não devia...? ”

... e a voz do Chico ecoava em mim, como um estrondo, numa noite de sexta-feira, a mais silenciosa de todas , uma preparação para o inverno que vinha chegando de mansinho...

Uma queimadura suave, em alguma parte interna , ardia , naquela madrugada vazia, tornei-me incomunicável, não cortei os pulsos, porém cortei todos os fios que poderiam me fazer escapar dali, desliguei o telefone e o interfone , não queria conexão alguma, abismei-me no meu silêncio, queria chegar ao fundo de mim e descobrir o que era real e inventado, o que era de carne e osso e o que era teatro...Tive um dia duro, representar cansava-me, retirei minha máscara e tentei relaxar.

Preparei uma taça de sorvete de creme com papaya misturado ao licor de Cassis, desliguei a luminária vermelha e me joguei sobre as almofadas coloridas no tapete azul da sala....

Ardia por dentro, enquanto aquela coisa gelada descia pela garganta, provocando vapores devido ao choque térmico....Esfumaçava-me....Estava exatamente assim, perdida entre as variações de temperatura do corpo e da alma...

Engolia o sorvete como se quisesse esfriar aquela escuridão, quase brasa, que sempre se apoderava de mim durante as madrugadas repletas de muitos silêncios secretos...Tentava resistir ao sono,tentava fugir daquele homem magnético e solar que surgia assim, no meio da noite , sempre que eu fechava os olhos, ele era minha aurora boreal....meu sol da meia-noite...Mas minha luta era vã,ele sempre me vencia...No íntimo, talvez, minha solidão tornara-se irresistível, para que eu pudesse permanecer nas minhas leituras e viagens, na escuridão necessária à penetração da luz dos sonhos repletos de volúpia e de uma liberdade impossível de ser tocada no plano real ; no onírico mundo, permitia-me ser outra, diferente daquela que todos conheciam, uma outra inventada, que, talvez, fosse, de fato, eu mesma..., e aquela que atuava na realidade , sim , era a personagem que eu vestia...

Nesse palco, por trás das cortinas que separam o real do imaginário, nasceram poesias , contos , músicas e todos os amores...Sim, amor, porque antes de se tornar físico, ele é imaginado, nasce de um olhar..., de uma voz... , das palavras...,de um perfume... Tudo isso toca a gente , antes mesmo das mãos...; quando os dedos deslizam sobre a pele ou os fios de cabelos, é apenas a confirmação do que se havia sentido através dos outros sentidos...

Primeiro tocamos o outro num completo silêncio... em segredo...

Por falar em tocar, resolvi ouvir bem baixinho ‘ Touch me’ na voz do Jim , como uma espécie de invocação , e sussurrava... toque-me...toque-me....toque-me..., e , acredite, aquele homem me tocava de uma forma mais real que qualquer outro..., e a carne tremia ,a pele arrepiava, prenunciando uma manhã fresca, com gosto de morangos..., não mofados, é claro...

Por isso , às vezes, o amor morre, pois deixamos de imaginá-lo ; por incrível que pareça, quando torna-se palpável ,começa a evaporar, pois esquecemos de nutri-lo com o tempero do inusitado que habita o imaginário, abundantemente....Então, o amor passa a fazer parte do cotidiano insuportável, e o bebemos diariamente como se bebe água, por uma questão de sobrevivência, mas não como algo saboroso, como um afrodisíaco que tempera a vida e nos abre o apetite ...Logo ele vai minando até sumir, na poeira dos dias iguais...amorfos...no mofo acumulado nos quartos trancados dentro de nós, sem janelas...

“Não se deve subestimar a força da cura do amor no delírio”, já afirmava Freud , apesar de existirem coisas que nem ele mesmo explicaria, mas esta era uma grande verdade ,que eu , mesmo relutando, acabara comprovando...

Tememos o amor, porque tememos o aniquilamento, mas nós que o aniquilamos com o fuzil da rotineira calmaria...da falsa ilusão de controle...

O amor requer variações de temperatura e pressão, sim , essas condições não pertencem somente ao campo do desejo , e talvez aí esteja outro grande erro, parar de desejar o amor...É preciso sacudir a poeira de vez em quando, pintar as paredes de uma outra cor e partir em viagem, redescobrindo mares....e outras marés...

O amor, como disse o Drummond , ‘é bicho instruído’, dá-nos asas, quebrando as algemas que nos acorrentam ao medo , e , quando isso acontece, a poesia surge em cada detalhe ,em cada vôo e em cada pouso, os versos envolvem os amantes,
ora versos mudos, ora versos sussurrados ao vento que sopra a chama e alastra o fogo...

Eu diria que o amor é um bicho alado... necessita de liberdade...e umas pitadas de insanidade, quando começa a ser racionalizado já não é mais amor..., é o que pensamos sobre ele...

Não , não quero sair desse delírio, quero permanecer nele, pois há mais de mim aqui do que lá fora....Quero decifrá-lo para que eu não seja devorada pelo nada que habita os dias...Quiçá lá dentro dele esteja a chave..., esteja a senha para acessar portais onde estão guardados os códigos que me ajudarão a compreender a realidade...

Amanheceu , sentia que eu acordava sempre um pouco mais iluminada pelo contato solar daquele homem...

Precisava despertar...o cheiro do café ajudava nessa árdua tarefa, com certeza necessitaria de muitos cafezinhos ao longo do dia....Mas esse estado de ‘despertamento’ era diferente de um outro que havia acontecido lá dentro..., quando em silêncio , aquele homem pôs seu sol em mim, e eu ,lua, eclipsei só para poder tocá-lo por segundos...mínimos e inesquecíveis....
Foi um despertar à base de sorvete e licor, era o tipo de despertamento selvagem , que ninguém poderia domar, nem eu nem ele, ainda que , externamente, racionalizássemos a entrega acontecida secreta
mente...

“O que será que me dá ,que me bole por dentro, será que me dá , que brota à flor da pele, será que me dá...?”...

E eu jamais saberia responder ao Chico nem a mim mesma... Você saberia ??...
Só sabia que esses meus avessos eram o que me salvavam ...Eram os meus eus nus...místicos e irreveláveis....Somente quem penetrasse os sonhos poderia me conhecer ...., poderia me tocar de uma forma mais profunda...

Só conhece o amor aquele que não perde a capacidade de sonhar...

‘ ...Por trás do que falam , há o que sentem;
por trás do que sentem, há o que ’ são’ e nem sempre se mostra...’
, já dizia o meu amado Caio....

O que lê-se nos olhos quase sempre não corresponde ao que a boca pronuncia..., por isso evitamos os olhares , para que não delatem o nosso ponto fraco... a nossa total vulnerabilidade... Por isso estamos constantemente a usar máscaras...Já no delírio, estamos de rostos lavados, pois não é preciso que representemos para nós mesmos...

Eis o amor... esse bicho esquisito, que se entrega , sem nem perceber, e nós nos rendemos ao seu doce mistério, ainda que sigilosamente ...

É preciso ter coragem de adentrar o desconhecido....
H(á)mar...além do horizonte que vemos...


É preciso roçar o invisível , como se beijasse a boca do outro, e salivar de tal maneira, que o mar transborde na boca imaginada, lá , do outro lado.., e o segredo seja , assim, dividido, num silêncio convulsivo...


E o eu beijei...e transbordei ... correntezas noturnas do amor...inundando a sala de um outro licor... mais doce...

(Raiblue)

Tuesday, April 28, 2009





POR UM FIO...

Hoje senti uma enorme vontade de evaporar ,tornar-me nuvem , queria brincar no céu que
recuava através da vidraça , fixando vertigens nos olhos da lua cheia que me espiava e exercia seupoder feminino sobre mim , sentia-me intensamente sedutora , desejos à flor da pele exalavam um perfume almiscarado, encharcando os lençóis de sonhos rubros...Mas esta lua era só minha, eu a imaginara assim, pois a que circulava lá fora era uma lua atômica , prestes a explodir naquela paisagem artificial...

Era inverno, não somente a estação, eu também invernei , chovia em mim sensações infinitas , verdadeiros relâmpagos atravessavam a mente e a carne , resolvi hibernar, por um longo período , no meu quarto , ficar com as minhas coisas , enrolar-me nas lembranças , colcha de retalhos a diminuir o frio da solidão dos dias sem sentido...

E será que haveria algum sentido a ser encontrado ?
Clariceanamente indagava-me , secretamente... Era uma viagem que não sabia onde daria , mas sempre fui atraída pelo desconhecido , deixei-me ir de corpo inteiro...
Apenas sabia que se tornara irrespirável o vazio lá fora , aglomerados de solidão circulavam nas avenidas geladas , onde o sangue escorria no cimento e petrificava pela indiferença , rios de egoísmo inundavam a selva de pedra e levavam qualquer vestígio de humanidade...O coração se tornara selvagem , somente eu insistia em sentir...Voei para dentro de mim...

Fugi para minha caverna , contrariando Platão , nem sempre os filósofos têm razão , eles nos provocam, apenas , o delírio é nosso ...

Meu quarto era o meu mundo , preferia ficar ali dentro , onde me habitavam multidões ainda bem humanas , onde alguma memória poderia ser preservada , um subsolo ainda desintoxicado , muito fértil , repleto de histórias , não lineares é verdade , porque sou fragmentada por natureza , mas elas , de alguma forma , intercalavam-se , talvez pelo destino ou por pura coincidência , não sei bem ao certo no que acreditava. Considerava que tudo era invenção , até eu mesma reinventava-me...

Quem eu era agora não correspondia àquela de uma hora atrás , às vezes , os segundos mudam nossas vidas completamente. Se não quisesse mudar , teria que paralisar o tempo , ser apenas uma fotografia , igual àquela que me olhava fixamente da cabeceira da cama , intacta , mas amarelada , como o amor que ali ficou retido pela moldura do tempo , amor em tom sépia, usando uma linguagem pós-moderna , mas diferente dos amores modernos à base de extasy e cálculos exatos de entrega , como se o amor fosse matemático , como se fosse uma equação com solução pertencente ao conjunto real , e não uma equação impossível de ser resolvida, sempre tendendo ao infinito , já nem sei se positivo ou negativo...

O que seria mesmo real ? A dor que ninguém vê ?O amor que ninguém toca ?A distância ? A saudade ? Parecia que somente eu via as coisas ...Eu era a estranha , os outros , normais...

Não , não , decidi que eu mesma inventaria minha própria realidade. Eu me agarraria a cada detalhe guardado nas minhas gavetas para me salvar daqueles dias cinzas que me cercavam . As gavetas sempre guardam segredos...talismãs...mapas...novelos...

Tudo , mesmo morto ou matado , continuava muito vivo em minha caverna, tentava segurar o novelo que me tiraria daquele inverno eterno...Estaria eu num labirinto ? Seria eu mesma o Minotauro a tentar devorar-me , naquela seCreta ilha que criei ?

Não sei , ao menos conscientemente não sabia..., mas qualquer coisa seria melhor do que aquele palco de cimento e de personagens mascaradas, algemadas a um presente sem passado nem futuro , uma odisséia no cyberespaço , sem heróis nem ideologias , onde os seres humanos tornaram-se verdadeiros alienígenas para mim , seres metalizados pelos artifícios das cidades virtuais , redes de ilusão ou seria uma espécie de geração futurista que já se apresentava e
dominava o mundo, simplesmente ?

O imenso oceano da realidade terminaria por encobrir minha ilha em pouco tempo, nada resiste às suas águas...
Mas tudo que eu queria era permanecer ali , naquele lugar improvável de ser encontrado , atravessei os himalaias de solidão das metrópoles para me descobrir naquele pequeno espaço , surpreendida pelos meus próprios olhos a fixar-me no espelho.Pela primeira vez me vi refletida em minhas retinas , sem máscaras, pela primeira vez adentrei minha alma ...
Foi assustador ! Havia uma parte sombria , onde habitavam meus medos e outros sentimentos mesquinhos adquiridos , porém havia outra cristalina, bem diferente do que imaginara.
A realidade não conseguira poluir totalmente meus interiores sagrados...

Enquanto minha ilha não afundava , continuava a brincar de nuvens , repletas de lembranças doces..., feitas de algodão..., e a saudade se dissolvia na boca e era azul..., últimos vestígios de humanidade , quiçá ... Será que alguém sentiria minha ausência ? Talvez tudo que eu quisesse fosse apenas receber um bilhete dizendo ‘sinto falta de você’...
Mas nenhum sinal , nenhuma voz , senão ecos do passado ali conservados no formol da memória emotiva ...

Segurava firme o novelo , não como fuga , contudo como questão de sobrevivência...Deixar o novelo se partir seria cair no mais profundo abismo, na pedra pontiaguda da realidade, seria letal...Não que eu mesma não fosse um abismo , sabia que era , mas este era inventado, poderia deslocar uma nuvem azul para aparar minha queda , seria transportada ao céu , suavemente ou seria ao inferno , através de uma serpente ? Não sei , ao certo , o que seria melhor imaginar , decidirei no caminho , ouvindo um blues de despedida da Janis in ‘Cry Baby'...
Um cheiro de pérola exalava da concha do infinito... deve haver algum sentido no que vem depois....

(Raiblue)

Friday, April 24, 2009




(SAL)DADE...

Havíamos marcado um encontro para uma madrugada chuvosa, porque queríamos dançar na chuva, como naquele filme ,‘ Singing In The Rain’! A canção seria composta pelos olhos e mãos...

E foi exatamente assim que aconteceu, tudo conspira a favor dos amantes...

Adentrei seu quarto azul pela janela, um vento suave soprando as cortinas amarelas... rocei sua pele delicadamente, como uma serpente, até ele arrepiar...Ele, que estava de bruços, virou-se, e, ao primeiro contato de nossas retinas, o fogo acendeu o quarto escuro.Lampiões acesos nos corredores da mente...abrindo os caminhos invisíveis...

Não conseguimos nos desgrudar. Ele se entregou ao meu domínio e voamos colados, de corpo e alma, até a praia do prazer...

Seus olhos eram faróis no meio da chuva... luz molhada cintilando tudo em mim.

O silêncio da madrugada amplificava as batidas do nosso coração... era o tambor de um amor ecoando do fundo das almas, no fundo das águas...

Caminhávamos de mãos dadas, sentindo a textura, o calor que atravessava os dedos
entrelaçados, e era como se todo o corpo tivesse abraçando o outro...

De repente, uma música, ao longe, aproximou nossos corpos. Suas mãos me falavam coisas que escorregavam pela cintura..., as pernas tremiam e tudo ao redor girava. Estávamos no carrossel do desejo, conduzidos por um amor que parecia anterior a nós mesmos.

Em seu ouvido, a minha boca ensaiava uma palavra que não saía..., mas ele sentia a quentura da minha respiração...O barulho da chuva junto ao som do violão, que vinha de uma janela aberta, numa esquina próxima à praia, conduziam a nossa dança...Suas mãos criavam as melodias mais ardentes..., as ondas vinham no ritmo dos seus dedos...Ele cheirava meus cabelos como quem inspirava o mar...a maresia... eu era sua praia...ele, o meu segredo no fundo do mar, que durante esta madrugada chuvosa veio à superfície e jorrou em minhas areias...

Quando seu rosto colou no meu, reconheci seu hálito, seu cheiro de algum lugar que não lembro, mas desse cheiro e textura eu já sabia, magicamente já sabia, e me arrepiaram como um surpreendente reencontro...

Quando nossos lábios deslizaram e se tocaram...a chuva parou como um encanto,estávamos molhados por dentro...

Acordei com lágrimas nos olhos...e o sal espalhado no lençol...

Cristais de suor e (sal) dade...

(Raiblue)



Encontro marcado e cumprido, querido Jéfte!